“E uma cronoescalada na Volta a Portugal? Srª da Graça. Isso é que era de valor”- um comentário que nos levou para outros mundos

O espetáculo desportivo tem vindo, através dos tempos a ganhar uma especial atenção do grande público e a sua especialização é cada vez maior, funcionando apenas, em termos mediáticos e audiência os grandes eventos de cada uma das modalidades.

No caso concreto do ciclismo, só as grandes competições do World Tour, com particular destaque para quatro provas ( Tour-Giro-Vuelta e Paris-Roubaix), que funcionam a nível global como espetáculos de topo da modalidade, conseguem picos de audiência superiores à grande maioria de outros espetáculos. Por seu turno, a nível nacional, apenas a Volta ao Algarve e a Volta a Portugal conseguem picos de audiência e atenção mediática, semelhantes e até superiores à grande maioria de outros eventos do mesmo tipo. As pequenas provas regionais e mesmo de impacto nacional têm elevado grau de importância, mas de nível compatível com a sua grandiosidade, que se reflete, por seu turno na sua divulgação e mediatização.

O publico segue atentamente um espetáculo desportivo, para o qual foi preparado, através da cultura desportiva implementada no país, e pela passagem de conhecimentos e ambiente de cada modalidade, de geração para geração.

Por isso, não será de estranhar a grande resistência pela imposição de modalidades sem tradição nos países para onde se quer implementar, uma nova cultura desportiva. Só à custa de muito esforço seria possível implementar no nosso país, jogos de beisebol, futebol americano como modalidades de referência, e até mesmo de râguebi, modalidade sem grandes tradições mas com forte apoio dos media e de patrocinadores, à qual não será de menosprezar o espírito elitista dos seus praticantes.

O ciclismo teve esta particularidade de transmissão cultural de geração para geração. O pai que já ia ver passar a Volta, nos tempos do avô e que leva agora o filho a ver passar o pelotão, adotando mesmo terminologias específicas da disciplina ,como carro vassoura, camisola amarela, pelotão, lanterna vermelha, etc que sempre ouviu referenciar, pelo menos uma vez no ano.

Há, pois, um culto dito velocipédico, uma tradição que se transmite de geração para geração, e que faz perdurar o ciclismo e a Volta a Portugal, como espetáculos de forte tradição popular, ligada mesmo a uma tradição festiva, com o percurso itinerante dos ciclistas ( a procissão), as barracas da festa , traduzidas nas tendas de distribuição de brindes dos patrocinadores da Volta, dos espetáculos com grandes artistas, coincidindo mesmo a data ( agosto), com as grandes festas populares que existem por todo o país nesta época, por sua vez reforçada com a chegada dos emigrantes que animam vilas e aldeias do nosso país.

Temos pois que o ciclismo constitui, no panorama desportivo nacional, uma das modalidades com mais tradição, e uma das poucas que conseguiu a transmissão cultural necessária à sua preservação, que tanto falta na nossa sociedade, pouco capaz em transmitir, através de gerações, os seus usos e costumes.

Mas esta cultura tem necessidade de inovar, de se tornar moderna, ativa, atraente e capaz de acompanhar a evolução da sociedade. Não chega passar a mensagem, é fundamental a sua adaptação a uma cultura cada vez mais mutante, que se torna global e pouco regional.

Mas o que nos levou a este introito todo ? Por duas e simples razões. A primeira devida a um comentário de ijyuejn@nhm.com , cujo teor foi o seguinte : “ E uma cronoescalada na Volta a Portugal? Srª da Graça. Isso é que era de valor.”

A isto se poderá chamar inovar, atualizar e melhorar o espetáculo desportivo, bem capaz de atrair milhares de espetadores ao local mítico de Mondim de Basto e catapultar as audiências televisivas .

A outra razão tem a ver com a grandiosidade das imagens de um ciclocrosse da Taça do mundo, e que se tornaria útil que o leitor visualizasse o vídeo que anexamos à peça, e que comprova a atualização permanente do espetáculo, que levou ao imaginável numa prova deste tipo : publico com largas dezenas de milhares de pessoas, e um mundo paralelo que puxa o espetador para o espetáculo, com as imensas tendas com as mais diferentes ofertas que se podem ver ao longo do circuito.

Com a adesão maciça de publico às provas de ciclocrosse na Bélgica, que os seus organizadores melhoram constantemente, para além de atrair cada vez mais público, obrigou, pela sua força e grandiosidade, à sua transmissão em direto  que, por sua vez, redundou em condições ideais para que equipas e ciclistas encontrassem sponsors dispostos a formar equipas profissionais, para um período competitivo de quatro meses.

Como em tudo na vida, há que semear para colher, pois só Deus seria capaz de fazer o milagre de colher sem primeiro semear.

JS

11 comentários a ““E uma cronoescalada na Volta a Portugal? Srª da Graça. Isso é que era de valor”- um comentário que nos levou para outros mundos”

  1. A alteração do CR final acho que é quase um must!

    Poderia passar por ser uma cronoescalada ou um misto dos 2, mas talvez ligeiramente mais curto.

    Quanto ao resto que foi sendo dito, penso que há razões para suportar todas as afirmações, apenas não concordo com a questão que foi levantada relativamente à etapa de Lisboa, dado que, a meu ver, acho que é importante para dar visibilidade à modalidade na cidade onde estão sediadas as grandes empresas e, com isso, sonhar que + um ou outro patrocínio importante possa aparecer.

  2. Sim Ou e etapa da torre que neste últimos anos tem sido um desastre e nao acabando por fazer diferenças e publico quase nulo devido a ser em dia de semana so mais um erros da organizadora da treta que neste ultimos anos e a volta ao mesmo e equipa da treta e ganha sempre o mesmo estilo de ciclista .
    A etapa de Lisboa Por ano Vai ser das mais importantes um CR no final pelo menos uma coisa nova .
    Mas acho que falta alguma coisa na volta.

  3. Mas que raio de ideia esta de mexer naquela que é a etapa mais espectacular em termos de publico, a unica que parece uma etapa do Tour, Giro ou Vuelta, querem estragar a subida a Sª da Graça? Acho que se querem melhorar o espectaculo devem de começar pelo que nao funciona como espectaculo e nao pelo que funciona.
    O CR durinho como foi referido Portalegre-Marvao seria uma boa opçao desportiva pois tem duas boas subidas, agora publico ja nao sei se tera e euros para o fazer muito menos, pois a Camaras daqui estao falidas.
    A opçao de Sintra talvez seja uma boa ideia, tem dureza, publico e euros e poderia substituir a etapinha de Lisboa que nao serve para nada.

  4. Uma questão: Mas a ideia seria trocar o CRI por uma crono-escalada, ou manter ambos? Na Volta de 2001 (onde o Pedro Martins, célebremente, andou sempre em fuga, na frente ou na traseira do pelotão!!), a última a ter uma crono-escalada (Manteigas-Piornos), para além da Volta ter 14 etapas, ou por isso mesmo, tivemos a crono-escalada, um CR individual e, se bem me lembro, um CR por equipas. Curiosamente, ou não, o vencedor do CRI, da crono-escalada e da geral da Volta foi o mesmo (Fabian Jeker).
    Outra questão: Existindo uma crono-escalada na Volta, sabendo o que é o “monte farinha”, conhecendo nós a orgânica do ciclismo, em especial do CR e, nomeadamente, os meios das equipas portuguesas e estrangeiras que por cá andam, seria a Sra. da Graça o local ideal para uma crono-escalada?
    Mais uma questão: Se o objectivo é tentar aumentar a competitividade, não seria mais produtivo uma solução mitigada? (ou seja, um CR curto e duro, como já existiu, por exemplo, entre Portalegre e Marvão… já sei que não há dinheiro!)
    Um desabafo: Uma crono-escalada no Tour é um espectáculo televisivo de sucesso garantido, mas, no terreno, pode significar um retrocesso a um ciclismo de má memória. Não é fácil controlar uma multidão, concentrada e excessiva, que quer ver ganhar alguém a todo o custo, podendo não ser o que está na frente. Numa Europa em convulsão política e social, não sei se será o momento certo. Oxalá me engane redondamente.

  5. Sem dúvida que isso seria de valor porque os anos passam e o percurso é praticamente o mesmo. Além de uma crono-escalada na Nossa Senhora da Graça, há o Centro Histórico do Porto que permite um espetacular prologo (praticamente não há um metro plano) e que podia começar no meio do Douro (por exemplo, numa ponte), há em Sintra a subida ao Palácio Nacional da Pena, há o Algarve (se não se pode atravessar o Alentejo, pode-se tentar ir por Espanha), há Peniche, etc. O que não falta em Portugal são locais belos e hospitaleiros. O que me dá a entender é que o problema muitas vezes são as autarquias que não querem investir financeiramente na Volta. Por exemplo, vê-se o caso do Porto que não quis organizar a partida da Vuelta do próximo ano e investe com Gaia em outros desportos no rio Douro.

  6. As alterações à volta são necessárias mas nunca mexendo no melhor que existe atualmente que é precisamente o público de Mondim ao Alto da Sra.Graça…essa fórmula é das poucas que resulta portanto não se mexa no que está bem…

    Já a subida à Torre sem qualquer tipo de interesse, sem qualquer emoção, com pouco publico e ainda assim repetida na mesma etapa ou em dias seguidos é totalmente dispensável…

    Quanto à cronoescalada deve ser feita num local onde haja cidades e publico relativamente perto….se há coisa que não faz sentido é colocar-se um ciclista sozinho a passar em locais desertos…

  7. Se a memória não me atraiçoa foi no ano de 2001 que houve pela última vez uma crono escalada na Volta. Era então ciclista o actual diretor da Volta, Joaquim Gomes, na equipa Carvalhelhos-Boavista. Sei que não é fácil delinear o percurso, mas talvez precise que alguém lhe relembre disso para incluir uma etapa do género na próxima edição…

  8. Excelente ideia.
    E porque não manter a Sra. da Graça nos mesmos moldes e fazer uma cronoescalana numa outra subida. Por exemplo uma cronoescalada na Serra da Nogueira (Bragança), não faria diferenças tão grandes como Sra. da Graça mas seria uma execelente serra para uma etapa desse tipo. Cidades médias mesmo ao lado (Bragança e um pouco mais longe Macedo), ou seja muito público garantido, no cimo da serra espaço suficiente para receber toda a caravana. Lembrei-me desta serra mas algumas outras haverá por esse país fora.
    A inovação no cilismo nacional é mesmo necessária.
    Se esta ideia não adoptada pela Volta a Portugal espero que outras provas o façam.

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