José Santos: “Gosto mais de ciclismo do que de vitórias”

Sempre frontal e sem medo de ser polémico, José Santos, o director-desportivo há mais anos em actividade no ciclismo profissional luso fala sobre o actual estado da modalidade, aponta o dedo ao que considera errado e passa em revista os serviços prestados pelo Boavista ao ciclismo português. Sem medo de criticar a dopagem, José Santos apela a uma mudança de mentalidades.
Como se dá a sua chegada ao ciclismo?
Foi em 1969, já lá vão quase 40 anos. Estive ligado a várias iniciativas: o ciclismo juvenil na Direcção-Geral dos Desportos, a fundação da Associação de Cicloturismo do Norte, também tive uma acção intensa no ciclismo popular. Mais tarde, fundei o Jornal Ciclismo [ndr: outra publicação que não a actual] e, durante sete anos, impulsionei o ciclocrosse em Portugal, organizando quase 20 provas por ano. Por contingências várias, não continuei e o ciclocrosse acabou em Portugal. Este ano ainda estudei a hipótese de retomar essa modalidade, mas desisti da ideia, porque não havia equipas nem atletas interessados.
Entretanto, também foi ciclista.
Sim, representei alguns clubes importantes: Coelima, Benfica, FC Porto. Fiz duas voltas a Portugal e concluí-as. Fui campeão nacional de pista, mas foi uma carreira um bocado em diagonal.
Como se dá a sua chegada ao Boavista?
O meu pai [ndr: a antiga glória Império dos Santos] era o treinador e eu escrevia n’O Comércio do Porto. Acabou por proporcionar-se a minha entrada para o clube e cá estou há 25 anos.
Fez todo um percurso que fez de si o director-desportivo há mais tempo em actividade no ciclismo profissional português. Que balanço faz e que mudanças se observaram?
É verdade. Já tenho quase 30 voltas a Portugal no currículo. As mudanças não foram muitas. Os problemas que havia mantêm-se. Cheguei a ser seleccionador e director-técnico nacional. As reformas que então foram ensaiadas não tiveram grande repercussão, havendo pouca evolução da modalidade. Apesar de tudo, o ciclismo é das modalidades com melhor nível de organização em Portugal.
Isso não evitou que o ciclismo tenha perdido parte substancial da importância pública.
A causa foi a passagem das principais corridas da Empresa do Jornal de Notícias (JN) para uma entidade que não era credível e que não tinha capacidade para suportar o caderno de encargos proposto pela Federação. Além disso, era uma empresa sem capacidade, dentro da sua estrutura, para trabalhar a comunicação, coisa que o Jornal de Notícias fazia. Começou com força, através de transmissões em directo de muitas provas, mas o que é certo é que a maioria dessas corridas já não se realiza. A organização em Portugal dos Campeonatos do Mundo também afastou os média do ciclismo, porque se criou uma situação de descrédito: o país que organizava os Mundiais não os transmitiu pela televisão
Neste período deu-se também uma maior internacionalização das provas portuguesas. Foi positivo?
Não temos capacidade económica para tantas provas internacionais. Eu gostava que as nossas corridas fossem todas internacionais, mas não há suporte para isso e quase todas elas dão prejuízo. Uma corrida internacional custa quase tanto como formar uma equipa para o ano inteiro. Não temos dimensão para tantas provas internacionais. A actual situação é quase como a de um indivíduo que se desloque de Porsche, mas que não tenha dinheiro para a gasolina. Depois as dificuldades são grandes para pagar os prémios. Se a Volta ao Alentejo, por exemplo, fosse nacional, o orçamento chegava para fazer uma volta ao Baixo Alentejo e outra ao Alto Alentejo. E isso seria preferível para o ciclismo.
A ausência de um grande ídolo nacional e a saída de cena dos principais clubes não terão contribuído para a quebra de impacto da modalidade?
Penso que não. A saída do JN é que reduziu o ciclismo a uma actividade como as outras e até com menos importância. O ciclismo tem público, mas o afastamento desse grupo mediático provocou o afastamento de outros órgãos de comunicação social. Acresce que os jornais desportivos são produtos comerciais. A excessiva comercialização do jornalismo também é prejudicial.
Uma discussão cíclica respeita aos alegados benefícios dos clubes tradicionais para o ciclismo. Estando num, o Boavista, sente-se beneficiado ou prejudicado por isso?
Se houvesse mais clubes tradicionais, haveria mais público. Veja-se o caso recente do Benfica que atraiu mais público. No entanto, o inverso também é verdade e este desporto resistiu muitos anos sem os clubes. Toda a modalidade que não tenha Benfica, FC Porto e Sporting sofre com dificuldades de público e de exposição mediática.
As dificuldades financeiras do Boavista têm-se reflectido na equipa de ciclismo?
Para já, não, embora tenha alguma apreensão relativamente ao futuro. Fruto de uma gestão bastante equilibrada, temos os vencimentos todos em dia e toda a estrutura controlada. Isto foi conseguido com grande sacrifício e rigor. Mas o clube não estando bem, a secção pode vir a sofrer. A angariação de patrocinadores pode ser dificultada, porque a percepção pública da credibilidade da instituição não é a melhor.
A gestão equilibrada de que falava fez com que a equipa de ciclismo tenha mudado de objectivos constantemente, da equipa vencedora do início da década de 1990 até a desempenhos recentes mais comedidos. É fácil fazer essa transição de ambições?
Para quem gosta de ciclismo é natural. Eu gosto mais de ciclismo do que de vitórias. Somos das equipas mais antigas, porque sabemos o orçamento que temos e é com essas verbas que temos de viver, melhor nuns anos do que noutros. Quando temos ciclistas cujo vencimento ultrapassa as nossas possibilidades deixamo-los sair. Fomos a equipa portuguesa que maiores valores lançou no ciclismo nacional e internacional: José Azevedo, Jose Luis Rebollo, Josep Jufre, David Bernabeu, Adrian Palomares, Manuel Cardoso, por exemplo. Todos eles se iniciaram como profissionais no Boavista.
Tendo trabalhado com tantos corredores é possível dizer qual o melhor de todos?
Foram vários que nos marcaram e que marcaram a sua época. Houve dois corredores que marcaram mais do que todos os outros, pelo seu carisma e pelo êxito que tiveram: o Cássio Freitas e o Joaquim Gomes. Ultimamente, o Tiago Machado, o José Azevedo ou o Pedro Silva também deixaram a sua marca. O Azevedo não fez aqui grande história, embora tenha cá passado os dois anos que considero mais importantes na carreira dele, porque as duas primeiras épocas como profissional são fundamentais.
Apesar das oscilações orçamentais, o palmarés é bastante preenchido.
Vencemos todas as provas nacionais. A dada altura só nos faltava o Porto-Lisboa e a Volta ao Alentejo, mas até essas corridas ganhámos. A nível internacional, estivemos presentes em algumas das principais competições: Volta a Espanha, Critério Internacional, Dauphiné Libèrè, Volta a França do Futuro, que vencemos por equipas…
Uma série de corredores que passaram pelo clube têm hoje tarefas de gestão de equipas de sub-23. Há no Boavista o cuidado de formar os atletas para que, finda a carreira, possam continuar na modalidade?
Sempre tivemos uma política de debate com os ciclistas. Não é por acaso que o Delmino Pereira é presidente-adjunto da Federação, que o Paulo Couto dirige a APCP e uma equipa, o Fernando Mota e o Pedro Silva estão à frente de equipas… Incentivamos a colocarem de pé alguns projectos. É importante o técnico dialogar com os corredores, espicaçando-os para a discussão. Provoco o debate e isso é importante como formação para que quem ganhou dinheiro com o ciclismo possa servir depois da modalidade com novos projectos.

Trabalho de José Carlos Gomes, publicado em 24 de Outubro de 2008

2 comentários a “José Santos: “Gosto mais de ciclismo do que de vitórias””

  1. é cada vez mais frequente ver Cassio Paiva reconhecido em Portugal e esquecido no Brasil!!

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