José Santos: “Coloco sérias dúvidas aos médicos espanhóis”

O professor José Santos é uma das vozes que mais vezes se escutam a contestar a dopagem e a exigir mais controlos. O técnico boavisteiro dispara em todas as direcções, afirmando que o doping é um negócio para todos, desde os laboratórios que produzem as substâncias às entidades incumbidas da fiscalização e do controlo. Irónico, afirma que as pessoas inteligentes percebem os motivos por que alguns corredores rendem mais quando deixam os axadrezados e por que outros rendem menos quando ingressam no Boavista. “Coloco sérias dúvidas quando vejo médicos espanhóis nas equipas portuguesas”, diz, sibilino, sublinhando: “Até na Federação existem médicos espanhóis, o que me admira”.
Há meses, num debate, afirmou que alguns resultados não são verdadeiros, referindo-se à dopagem. Enquanto técnico e perante um desempenho de um corredor ou equipa consegue formular um juízo de suspeição imediato?
Há situações que são importantes. Esta época fomos a única equipa portuguesa que não tinha no plantel nenhum ciclista envolvido na Operação Puerto. Lutámos abertamente para que a Federação aplicasse medidas para disciplinar a situação. Já há 3 ou 4 anos disse ao presidente da Federação que se tratava de um problema cultural. Na altura fui criticado, mas entretanto o próprio presidente veio dizer isso mesmo: o doping faz parte da cultura do ciclismo. Essa cultura terá de ser modificada e para isso é necessária uma grande vontade dos directores-desportivos. Coloco sérias dúvidas quando vejo médicos espanhóis nas equipas portuguesas. Quando temos cá bons médicos, que necessidade há de ir buscá-los lá fora? Até na Federação existem médicos espanhóis, o que me admira.
Como se muda a tal cultura que diz existir no ciclismo?
Tem de começar pelo Conselho Nacional Antidopagem (CNAD). Nunca vi o CNAD nem a Federação a reunirem as pessoas todas do ciclismo e a explicar-lhes os malefícios todos do doping e a dizer, de forma didáctica e pedagógica, como lutar contra a dopagem. O CNAD faz mal o seu serviço.
Mantém a ideia de que o doping é um negócio para muita gente?
É um negócio para quem trafica, para os laboratórios e para quem vai analisar. A própria UCI já tem muitos especialistas a trabalhar em exclusivo nesta área. Se calhar não interessa a quem controla que acabe o doping, porque se isso acontecesse uma série de pessoas perdiam o seu emprego. O erro está nos laboratórios que produzem algumas substâncias que poderiam deixar lá um marcador para que fossem detectáveis, está nos traficantes, nos atletas que usam, nas equipas que colaboram e nas entidades oficiais a quem não interessa ir ao fundo da questão e resolver o problema de vez.
Os controlos orientados serão uma potencial solução?
Os controlos são caros, pelo que devem ser direccionados para atletas suspeitos. É fácil identificar através das alterações dos parâmetros sanguíneos. Também devem incidir nos candidatos às principais provas e nos ciclistas que passam muito tempo ausentes de competição. A nível internacional isso já acontece, como se viu na Volta a França.
Na sua opinião, por que falhou o código de ética em Portugal?
As pessoas não estavam interessadas em implementá-lo.
Que pessoas?
Primeiro foi a associação de ciclistas e depois algumas equipas também não se mostraram muito adeptas da medida. Para a próxima época já propus à Federação que cada ciclista tenha uma caderneta onde sejam afixados, mensalmente, resultados de análises a serem feitas todas no mesmo laboratório.
Como tem acompanhado o caso LA-MSS?
Não faço nenhum juízo de valor. Não estou dentro dos respectivos dossiês. Noto que a equipa, desde o começo do processo, ainda não fez qualquer conferência de imprensa para explicar a situação. É um facto estranho e isso não jogou a favor da equipa. Deveria ter havido um saneamento. Não se verificou uma demonstração de vontade de luta contra o doping. Deveriam ter sido tomadas medidas: “há pessoas suspeitas, elas serão afastadas até que tudo se esclareça e serão reintegradas se nada se provar”. Isso não se verificou e caso tivesse acontecido estou convencido de que a equipa poderia ter continuado a correr.
Teme as consequências do desenvolvimento futuro do caso?
Com tantos casos de doping que o ciclismo tem até a nível internacional, não é por aí que o gato vai às filhoses. Acho é que as pessoas têm cada vez mais de perceber que é preciso jogar por igual. Quem cá anda há muitos anos, observa resultados que não podem deixar de ser vistos como estranhos e que não são compatíveis com o valor de alguns ciclistas. Sou muito criticado por não ter médicos estrangeiros, mas eu não preciso de médicos na equipa. Criticam-me também por ter um plantel pequeno e os meus ciclistas correm muito. Isto não pode ser criticável. Posso é criticar aqueles que têm muitos ciclistas que correm pouco.
Porquê?
Porque um ciclista quanto mais correr, maior é o seu nível competitivo.
Outra crítica que lhe é feita é a de que lança grandes corredores mas eles só obtêm resultados quando saem do Boavista.
Também podem criticar-me por ir buscar corredores que, nas mãos de outros, andam muito e nas minhas andam menos. Não vou dizer os motivos, mas as pessoas inteligentes saberão porquê.
A sua saída da presidência da associação de equipas teve a ver com a sua actuação no caso do código de ética?
Neste momento nem sei se existe associação de equipas. Acusavam-me de reunir pouco, mas desde que saí ainda não houve reunião nenhuma. Algumas equipas mostraram-se desagradadas com a forma como estas questões ligadas ao código de ética eram apresentadas à Federação. Estiveram no seu direito e escolheram outros membros.

Trabalho de José Carlos Gomes, publicado em 24 de Outubro de 2008

3 comentários a “José Santos: “Coloco sérias dúvidas aos médicos espanhóis””

  1. NAO CONHECEM O PROF.JOSE SANTOS DE CERTEZA…QUANTO AOS CICLISTAS DELE LAVEM A BOCA,NESTE CASO AS MAOS ANTES DE ESCREVEREM QUALQUER COISA SOBRE O PROF. E OS CICLISTAS DO BOAVISTA.

  2. O sr jose santos e uma pessoa mt engraçada , e facilmente se consegue rir as cuctas dele!!
    DE FACTO DE MOMENTO NAO TEM nenhum medico espanhol (porque ja teve) se calhar porque nao tem dinheiro para o ter?! Mas tambem deixo uma pergunta no ar, ele que diz que tudo o que acontece na equipa e da responsabilidade dele, porque e que ele tem corredores na equipa que individualmente tem medicos espanhois? se duvida de todos os medicos espanhois e diz que foi a unica equipa que nao contratou corredores operaçao puerto ,devia se certificar se os seus corredores tinham ou nao os tais medicos!! Mas eu compreendo-o assim eles fazem o que tiverem que fazer, mas no fundo , o sr professor nao tem os tais medicos!! Mas assim e facil dizer estas piadas , com jornalistas que so fazem perguntas de amigos!

  3. Tanto quanto sei, o Boavista teve também um médico Espanhol, J. Bastida, se o jornalista se tivesse documentado devidamente para a entrevista devia confrontar o D.D. José Santos com esta situação e saber qual a explicação dada á mesma, seria interessante para os leitores…

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