Tour San Luís, o paraíso para os ciclistas europeus

Texto e fotos: José Santos*

As serras são para todos os gostos na Argentina
As serras são para todos os gostos na Argentina

S. Luis será um destino de férias. A aposta, pelo menos é séria, servindo o ciclismo como pano de fundo, para uma acção de promoção deste Estado argentino além fronteiras. Do que vimos, lamentamos que o mesmo não se veja por cá. Um Estado que planifica o seu futuro, assente nas grandes ferramentas das sociedades modernas: a preservação do ambiente, como mola real para o desenvolvimento de uma região.

Por ano, em S.Luis, são plantadas um milhão de árvores, construídas novas auto-estradas, e os espaços desportivos existentes fazem o visitante ficar de boca aberta: um velódromo, um hipódromo, um autódromo, dezenas de campos relvados , onde não falta um estádio de futebol, com todas as mordomias.

Viajar em S. Luis é fácil, os acidentes são reduzidos, porque raras são as vias com dois sentidos.
Quando desembarcamos em Buenos Aires, esperava-nos uma nova viagem dividida em dois capítulos: uma nova ida de avião de Buenos Aires para Mendoza e, daqui para S. Luis de autocarro.

Atravessar Buenos Aires, de um aeroporto para outro permitiu-nos observar os graves problemas das grandes metrópoles: dezenas de sem-abrigo dormindo nos jardins e avenidas da cidade e os numerosos bairros, tipo favelas.

A entrada em S. Luis (Estado) foi surpreendente. Do final do Estado de Mendoza até à cidade de S. Luis esperavam-nos cerca de 90 quilómetros, em autovia, completamente iluminada do príncipio ao fim (todas as autovias eram iluminadas) e a ladear a faixa de rodagem erva e árvores estacadas, em duas colunas separadas entre si cerca de 10 metros. Ficamos impressionados. Mais impressionados ficamos quando demos conta que, ao longo desta distância, centenas de pessoas cuidavam da sua manutenção.

Mas porque falar de S. Luis com tanto entusiasmo? A resposta é simples para quem gosta de ciclismo. É que a grande aposta na divulgação e promoção turística da região é feita, basicamente através do Tour de S. Luis, com o apoio do seu Governador Alberto Rodrigues Sáa, num Tour que vai na sua quinta edição e que não pára de crescer.

O ambiente em torno da corrida é entusiasmante. A bonomia do povo argentino é vísivel, na abordagem aos ciclistas e no respeito que nutrem pelos atletas. Num jantar de gala final, Alberto Sáa solidificou a sua aposta no ciclismo, como “modalidade de grande impacto junto do povo. “Ainda hoje estou para saber como é possível toda a gente aplaudir os ciclistas. Em S. Luis ao fim de cinco anos, já vivenciamos a cultura do ciclismo. O povo entende o ciclismo e os jornalistas já fazem grandes reportagens do Tour de S. Luis”, disse.

De S. Luis apenas trazemos imagens positivas, de um Estado com 0,5 de taxa de desemprego, com 60.000 mil vivendas construídas recentemente, de dezassete diques de água artificiais, de postos de Internet gratuitos, instalados em todas as áreas de descanso das autovias e estações de serviço e em diversos locais públicos, de 900 kms de autovias e de estradas sem buracos. De cidades limpas e de gente feliz, que tinha orgulho na obra feita, como o Palácio do Governo, qual pirâmide do Egipto, local de apresentação das equipas, noite, com televisão em directo e fogo de artíficio, a fazer inveja a muitas organizações do ciclismo da Europa.
No final e em jeito de despedida, um jantar de gala reuniu todos os participantes na prova, que terminou em euforia, quando Alberto Sáa anunciou a formação de uma equipa continental UCI, em 2012 sedeada em S. Luis.

A CORRIDA
A prova tem todos os ingredientes para se tornar,a muito curto prazo como destino favorito dos grandes ciclistas e equipas mundiais: boas estradas, com percursos para todos os gostos, em especial a rolar , com rectas a perder de vista e a subir, com subidas longas, mais de 20 kms sempre a empinar, e montanhas de grande inclinação.

Segurança dir-se-ia que não era precisa, tal o respeito dos automobilistas pela corrida, bem como pelo facto de 80% do percurso ser feito em autovias de sentido único, mesmo assim se algum organizador de corridas em Portugal se atrevesse a ter na estrada tantas motos e carros de patrulha, bem como vigilantes em todos os cruzamentos, que existiam em S. Luis, bom certamente a prova não passaria da primeira etapa…
O clima é outra das vantagens argentinas, nunca se registou ao longo da prova temperaturas inferiores a 30 graus centígrados.

Reunidos todos estes ingredientes, apimentados com uma estrutura organizativa simples, mas eficiente, o Tour de S. Luis pode-se converter como um dos poucos paraísos de princípio de época, em especial para os ciclistas europeus.

Bicicletas em camiões a caminho da partida
Bicicletas em camiões a caminho da partida

Como se desenrola a prova: as equipas ficam alojadas sempre no mesmo hotel. A horas determinadas diariamente pela organização, saiem primeiro as bicicletas acondicionadas em dois camiões com atrelados. Passado uma hora, quatro potentes autocarros transportam os ciclistas para o local de partida. Os carros de apoio das equipas saiem apenas com o pessoal técnico e material suplente para apoio durante a prova.
No final das etapas a cena volta a repetir-se, o que leva por vezes que os ciclistas cheguem algumas vezes sem tempo para massagens, dado que as equipas técnicas são reduzidas a um director desportivo, um mecânico e um massagista.

Os prémios foram distribuídos no final da prova, cerca de duas horas depois de terminada a corrida, o que também é um bom incentivo para os ciclistas.

Quebra de Tondo foi momento épico em S.Luís
Quebra de Tondo foi momento épico em S.Luís

Do epicismo típico das grandes provas de ciclismo, um momento único: o desfalecimento de Tondo na etapa rainha, com 190 kms duas contagens de rimeira categoria, a primeira com mais de 25 km de extensão, a segunda , mais curta 16 kms, mas com inclinações de arrepiar, e for precisamente no início desta montanha que o espanhol , na tentativa de seguir o chileno Arriagada, não teve forças para o acompanhar desfaleceu e caíu, o que o atirou do primeiro lugar para um resultado modesto na classificação.

Foi notório o avanço competitivo dos sul-americanos, em relação aos europeus, num continente onde não faltam provas, grandes competições, normalmente Voltas nacionais, que agrupam as selecções nacionais de cada um dos países. Destas, as mais fortes: O Chile, a Argentina e Colômbia, mais discretas o Uruguai e Cuba, mais fracas o Equador, Bolívia, Paraguai e Brasil.

Em relação às equipas europeias, a Androni foi, de longe, a mais competitiva, com três vitórias de etapa, enquanto a estrela da prova, Ivan Basso, veio ganhar endurance e perder alguns quilos.

Da Onda-Boavista, tenho que admitir que a participação foi modesta, mas as indicações foram boas, e o ânimo elevado, para enfrentarmos novos desafios, num ciclismo cada vez mais global.

* Director-desportivo da Onda-Boavista

3 comentários a “Tour San Luís, o paraíso para os ciclistas europeus”

  1. Parabéns ao Professor José Santos pela crónica, muito boa, assim dá gosto de ler notícias sobre o ciclismo.
    Aprendam os ditos jornalistas com o Professor!

  2. Parabéns à Onda-Boavista pela participação e obrigado por estes documentários sobre a prova! 😉

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