0,0000000005 ou os números da inocência do caso Contador

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— Texto de opinião de José Santos* —

Alberto Contador continua a clamar inocência, em relação aos cinco pictogramas de Clembuterol, detectadas num controlo antidoping, numa das etapas da Volta a França.
O caso, rocambolesco, apresenta algo de sinistro, face a situações que poderemos considerar anormais:

– primeiro porque, tal quantidade, não é detectável na grande maioria dos laboratórios, o que quer dizer que esta análise foi escalpelizada, de forma anormal, ou pelo menos diferenciada em relação a de outros situações e,

– segundo, dada a transversibilidade das análises efectuadas, quer ao longo do ano, quer durante a própria Volta a França, será possível descortinar se o uso foi sistematizado ou se, pelo contrário, corresponde a uma análise isolada, que pela quantidade detectada, demonstra que o seu aparecimento se deveu a factos anómalos.

O problema do controlo anti-doping no ciclismo, dado o seu passado pioneiro, acarretou para a modalidade uma má imagem:

– primeiro porque, a grande maioria das outras modalidades, ao não serem controladas, durante décadas, obviamente não registavam quaisquer tipo de casos, caindo a totalidade do ónus no ciclismo,

– segundo, a insipiência (diria “insapiência“) com que os dirigentes da modalidade encetaram as démarches foram sempre negativas, ou pelo menos causaram elevados danos, naquilo que o ciclismo tinha de mais precioso e histórico: os atletas.

Através do ciclismo foram inventados, todo o tipo de análises e procedimentos, funcionando os atletas como autênticas cobaias, caindo-se no exagero de serem mantidas amostras para serem analisadas no futuro. Isto será o mesmo que, por exemplo, serem mantidas algumas potenciais infracções à lei do código de estrada, em stand-by, esperando que saia uma legislação capaz de penalizar os infractores.

Mas o mais grave é que a manutenção dessas amostras em “quarentena“ seriam apenas e unicamente para servirem como métodos de investigação, e nunca para outro tipo de convénios ou estudo, o que pelos vistos, não será bem assim…

Mas, voltando ao caso de Alberto Contador, o importante seria descortinar se o caso se ficou a dever a qualquer tipo de contaminação, ou se pelo contrário à utilização de qualquer tipo de produtos constantes da lista proibida, e, portanto, passível de castigo.

Pelos vistos, este facto não será possível provar : Contador terá dificuldade em provar a proveniência da carne possivelmente alimentada à base das tais rações, e as entidades que procederam à análise, terão outras tantas dificuldades para, cientificamente provarem que o positivo da análise se deva unicamente à ingestão de qualquer produto.
Ora, na justiça comum, a justiça verdadeira, aquele que se cinge pelo respeito da integridade dos cidadãos, em caso de dúvida, em que não conseguiu reunir as provas suficientes para a condenação, só lhe resta absolver o réu.

No desporto pelos vistos não. Em caso de dúvida opta-se pela condenação.

No périplo que atravessa para provar a sua inocência, Contador deparou num caso de um jogador de ténis de mesa que tinha sido ilibado, com o mesmo produto e com a mesma argumentação do ciclista espanhol: a ingestão de carne “alimentada “ à base de produtos com rações em que na “ ementa” constava o clembuterol, e apresentou o seu caso similar. Foi sol de pouca dura, porque propositadamente ou não, de ilibado o tenista de mesa, rapidamente passou a culpado.

Este facto indicia, o que há muito me preocupa: a discriminação. Quer isto dizer o tenista foi ilibado mas, quando a defesa de Contador se preparava para comparar o seu caso com este, os factos foram prontamente alterados. Mas porquê?

Mas bem vistas as coisas, tem mais lógica a penalização do tenista do que a do Contador:

– primeiro, porque o tenista não tem ao dispor dos investigadores uma bateria de análises que comprovem o aparecimento inusitado do produto no seu organismo. Isto é, não tem suporte para contestar pelo seu histórico. Não tem controlos surpresa inopinados, não tem anteriormente ao seu positivo uma série de análises efectuadas em dias seguidos, anteriores ao caso positivo, nem tem um passaporte dito biológico, onde se pode comprovar alterações que justifiquem este aparecimento.

– segundo, Alberto Contador foi alvo de vários controlos surpresa antes da Volta á França . Durante o Tour e antes do dia em que acusa o referido clembuterol, foi várias vezes analisado em todas elas negativamente. Possui um passaporte biológico, como todos os grandes ciclistas.

Partindo de todos estes pressupostos, permitimo-nos concluir que os resquícios existentes na amostra, dificilmente, dada a quantidade detectada, poderão ser ocasionados pela ingestão de um qualquer produto, ou pelo menos mais facilmente será possível verificar, através do histórico do atleta, que é difícil que o produto, dada a sua ínfima quantidade, possa ser derivado da utilização de qualquer procedimento ilegal..

Podemos também concluir que os investigadores terão mais meios para chegar a uma conclusão com os meios disponibilizados ao seu serviço, pelo atleta de ciclismo, no caso Alberto Contador.

* Director-desportivo da Madeinox-Boavista

19 comentários a “0,0000000005 ou os números da inocência do caso Contador”

  1. Eu em relação há opinão deste amigo joão, só concordo com a parte final,quando diz que isto não passa de um negocio e envolve muito dinheiro, e como tal vale tudo menos tirar olhos, e salve-se quem puder, temo que sejam muito poucos ou mesmo ninguem.

  2. tanto paleio para nao se aproveitar nada de tanta conversa…. fica aqui uma noticia que vale a pena ler, e pode ser que deixem de falar tanto, e que um comentario e para ser breve, mas mesmo que nao seja que tenha algum conteudo, http://www.cyclingnews.com/news/argentin-hits-out-at-contador-and-the-uci este senhor sim, fala sem medo e poe o dedo na ferida. e no caso contador e uma vergonha ainda nao estar decidido, e a culpa e unica e exclusivamente da uci. se tivessem provas irrefutaveis ja tinham condenado o contador, mas ainda nao o condenaram porque? nao ha provas que permitam condena-lo e pronto. so para terminar, estes casos que so tem a intençao de denegrir a modalidade, como no caso contador, e devido aos ressabiados franceses, ao jornal le equipe, a federaçao, poios a mais de 20 anos que no tem alguem a vecer a volta a frança, e tem lançar suspeitas, e como isto e um negocio, e quem tem mais dinheiro e quem manda, a uci vai atras. desde os tempos de indurain que o le equipe levanta suspeitas a todo o ciclista que ganhe a volta a frança.

  3. Concordo inteiramente com sousa. E acho que a opinião do sr José Santos não é de se levar muito em conta, a não ser no mundinho fechadinho do ciclismo português onde todos se atiram com areia para os olhos e adoram, vivem todos felizes no próprio deserto onde só entra quem acreditar nas conversas do Sandman. Apraz ao sr professor mandar “bitaites”, talvez para não olhar para a sua realidade. O mesmo senhor que chegou a opinar negativamente acerca do jão cabreira e hoje, que o rapaz já tem o passaporte bem carimbado (é “in” conhecer uma pessoa que já “viajou” muito, ih ih) o acolhe nas suas fileiras. Talvez para hilarizar um pouco o sinistro do ciclismo. Adoro esta modalidade, mas depois de tantos anos a observa-la de perto… nniiaaahhhh.. deixem-se de tretas. Gosto de como o sr professor parte para a ofensiva, mesmo típico dele, alegando o caso do ténis de mesa. Na mesma linha de pensamento, aprofundo a questão levando-a aos records de natação que saltam todos os anos. Esse não é o ponto da questão. O contador acusou algo anormal, por pouco que seja, foi algo anormal. E não é a carne que está estragada, é a desculpa da carne que já cheira mal. Foge-me ao raciocínio o porquê de ainda se perder tempo com debates desse género. Hoje em dia qualquer pessoa tenta dar a volta ao sistema se tiver meios para isso, está no gene humano… Eu amo ciclismo mas não ponho as mãos no fogo por ninguém, tenho muito apreço pelas minhas manitas. E tendo plena consciência deste desporto que tanto acarinho sei que não se sobem montanhas só a “comer bananas e a beber isostar”, como comentou uma vez McEnroe ao falar sobre o doping no ténis e ao admitir que tomava doses para cavalo. O ciclismo está doente porque goza com a cara de quem o cura, os adeptos. Sem adeptos para ver, ninguém quer estampar o nome num fato de lycra, sem padrinhos não há afilhados e nem afiliados. Entra-se num ciclo vicioso de doença terminal. O busílis da questão é os ciclistas deixarem de querer ascender a santos (as igrejas já estão cheias deles e já passou o tempo das beatificações em massa), os directores desportivos deixarem de se armarem em parvinhos inocentes que não sabem de nada, não viram nada, nem sabem o que é doping, e que não é nada com eles, quando eles são quem lidam de perto com os atletas e testemunham as suas evoluções como tais. Admitam que são fracos, que pecam, que erram, e aí talvez as coisas comecem a ficar melhor outra vez. Até o Anquetil admitiu que se dopava, como todos, aliás, e que para constata-lo bastava olhar parar as coxas dele todas picadas. e não deixa de ser o grande Anquetil. Agora, porque têm ajuda de médicos que fazem de tudo para que não se detecta, e de facto, nem sempre se detecta, são menos dopados? É isso que os torna menos dopados? A prova que ninguém consegue provar? Talvez na justiça se seja inocente até prova do contrário mas, por favor, no ciclismo o que conta é a crença dos adeptos no ciclista. A justiça, quem a faz é quem vê. Se o sr professor tem gosto em defender o contador, é porque se deve reconhecer nele, e se as autoridades controladoras centram os seus esforços à procura de culpados, é porque sabe que a modalidade lhos dá, senão dedicava-se a outra coisa. Só não vê quem não quer ver… o Contador??? Pois, pedala assim por causa da maturidade que ganhou, consequência da operação que fez ao cérebro devido à malformação vascular, tssss… Diz que o fez mais maduro, fran fran fran… Não passa de mais um palhacito que não engrandece em nada a modalidade. E não percebo como é que portugueses perdem tempo a falar dele quando têm tanta roupa suja à espera de ser lavada… Ah, já sei, é para não ver a pilha a acumular, é que depois ainda é preciso passar a ferro… eu sei o que isso é, mais vale fechar a porta da lavandaria, fazer de conta que não existe e opinar sobre as cuecas amareladas e sem elástico no estendal da vizinha…
    Agradeço ao sr professor, já há muito que ele não me fazia rir, desde os tempos em que paralizava as entregas de prémios nos pódios.

  4. Caro Luis Gonçalves,
    Excelente análise deste desporto que nós tanto gostamos. Só é pena que aqueles que têm, responsabilidades e se armam em defensores andem a dar cabo dele.

  5. Bom, é o Contador, não é? O melhor é fechar-mos os olhos em prol do bom ciclismo, e melhor ainda é acabar com as analises ao doping, e deixa-los trepar como loucos, temo é que menos analises dê mais autopsias, mas tudo bem.
    Quando vejo pessoas tao importantes para o ciclismo a darem opiniões tao levianas e a defender o doping com tal veemencia, fico com a “SINISTRA” imagem do que se passa nos bastidores do mundo do ciclismo.
    Mas façam como quiserem, se acham que no ciclismo há mais casos de doping unica e exclusivamente porque os controios são mais apertados, só me resta rir, e pedir menos areia para os olhos.
    Por fim,há que levantar sempre aquela pequena variavel do “se calhar ele ingeriu por estar perto de alguem, ou foi por vir na carne”, apesar do que julgo saber, isso não serve para levantar duvidas plausiveis, pelo menos nunca o poderemos confirmar, como tal castiguem-o como já fizeram no passado com outros e ponto final.
    Será que só no ciclismo é que se come carne? E muitas vezes estragada? Adoraria que as outras modalidades fizessem os mesmos testes, assim acabasse de uma vez por todas com a história dos testes rigorosos só serem pró ciclismo.

  6. Falam tanto do assunto, será com conhecimento??, a questão na base estritamente cientifica é duvidosa, basta pedir opinião a qualquer Doutorado em análises laboratoriais, quando se fala em 0,0000000005 de uma substancia isto pode cair no “erro” ninguém pode garantir a 100% que a substância está na amostra.

  7. O director desportivo José Santos, que vem conseguindo uma opinião mais ponderada, utilizou a mais correcta palavra do mundo para caracterizar a questão: Sinistro!! obviamente que os problemas com doping, que não são só de agora como alguns acreditam, são sinistros. Às vezes uma sinistralidade curiosa e burlesca: a forma como o “fornecedor” se vangloria do método utilizado para conseguir levar o produto do ponto x ao ponto y; a malinha que circula na mão do cidadão anónimo ao ciclismo durante uma competição… enfim fait-divers, embora sinistros, que acontecem em qualquer desporto. Mas mais sinistro que isto, mesmo sinistro é: O elemento da UCI, na obscuridade, sugerir a determinada equipa (pouco influente e quase proscrita) que aquele corredor tem, ou convém, deixar o primeiro lugar da geral que ocupa por mérito próprio; o patrocinador, que é o primeiro a purgar e a fugir quando as coisas correm mal, que pressiona, como ultimato ou ameaça, determinada equipa pelos resultados, bem sabendo onde isso pode acabar; Os dirigentes federativos que ocupam cargos de topo e mais cargos de topo, com um grau de incompatibilidade, suspeição e falta de bom senso tremendo; Os interesses que laboratórios e agências de controlo anti-doping têm no ciclismo; A má gestão de algumas equipas; a má formação (e não falo de diplomas) da maioria dos treinadores das camadas jovens, que leva à deformação dos próprios jovens atletas e à desistência precoce de alguns que poderiam dar bons atletas no futuro; a inveja do sucesso de alguns; os opinadores que não sabem andar de bicicleta; o perpetuar de dirigentes federativos, associativos, e comissários; os novos ricos ou frustrados que aparecem apenas na Volta a Portugal… Sinistro, são os ataques pessoais, porque é apenas disso que se trata, que se fazem às maiores figuras do ciclismo mundial e que vão acabar por definhar o ciclismo! Já falei de mais. Resta-me dizer, como penitência, que também há coisas muito boas no ciclismo. O meu desporto.

  8. Este artigo do Professor José Santos na minha opinião é do mais elementar bom senso e o mais correcto que eu já vi escrever sobre este caso.

  9. Realmente o Prof Jose Santos foca exactamente o que para mim é o principal problema do ciclismo, que é o facto das entidades que regem o ciclismo serem as primeiras a dar cabo da modalidade, quando assim é, torna-se dificil mudar o que quer que seja.
    No entanto nao nos deixemos enganar, porque no desporto profissional e principalmente no ciclismo ha muito que os resultados justificam os meios.
    É ridiculo o que se passa com o caso do Contador, com a quantidade tão infima de substancia proibida, mas será que isso não será apenas a ponta do iceberg’???
    Não é por acaso depois de os espanhois dominarem o desporto em geral, que cada vez aparecem mais casos de doping em Espanha…
    Enquanto que os atletas e os dirigentes estiverem dispostos a TUDO, que isto não acaba, ou talvez acabe quando os patrocinadores deixarem de apostar no desporto.

  10. jeremy:
    para alem disso o alessandro colo,da isd,foi participar numa prova na america,acusou positivo,foi suspenso,contratou especialistas e provaram que a carne americana tem drogas(e algo desse genero).de 2 anos passou para 1…………o fuyu li por acaso ainda espera pelo valor da suspensao mas independentemente do caso se á pessoas que lhes acontece e á suspensao um dos melhores aocntece e nao há???????????

  11. Caro José Roque, até concordaria consigo excepto em dois factos:
    A) acredito perfeitamente que vão mudar a regra devido ao nome do Contador e não devido a algum sentido de justiça. Simplesmente ninguém quis saber quando foi o caso do Li Fuyu e não vi ninguém a dizer que achava plausivel a história da carne contaminada quando foi um chinês desconhecido a apresentar essa justificação. B) Segundo consta, foram encontrados vestigios de uma substância associada à composição de sacos de sagues no sangue do Contador. Não vejo a referência a esse achado neste artigo de opinião.

  12. Fazemos testes científicos ao mais alto nível: Equipamentos, túneis de vento, treinam até ao limite físico, a mais moderna tecnologia, reconhecimento de locais, uma série de coisas tipo NASA. Depois a meio da mais importante prova do mundo de ciclismo, mandamos vir carne de Espanha. Não sei o que está errado, se todo o profissionalismo da primeira fase do texto, ou o amadorismo de quem manda vir a carne.

  13. Concordo plenamente com o Sr. José Roque, a lei não é justa.
    Mas não podemos só pensar na lei, temos de pensar na realidade, se acusou algo de anormal é porque ele existe. Eu continuo com a minha opinião, apesar de gostar imenso de ciclismo, para mim uma boa equipa 50% é um bom médico.

  14. uma opiniao de um senhor que tem importancia e credibilidade no ciclismo. concordo plenamente com a opiniao do professor jose santos. basta olhar aos numeros e aos factos, pois esta mais que comprovada a inocencia do ciclista.

  15. O que eu acho curioso é que se denomine de justiça aquilo que se estipula por lei sem ter em conta a falibilidade do ser humano enquanto legislador e aquelas invariáveis máximas de que ” só os burros é que não mudam de opinião e de que ” a própria verdade é efémera”. Nunca nos esqueçamos que milhares de pessoas arderam na fogueira em nome de uma justiça (a da Inquisição) que na altura parecia plausível aos olhos da grande maioria.
    Estabeleçamos exemplos porque são eles que dão riqueza à noção de justiça e é com base neles que ela se deve basear; um indivíduo está numa discoteca onde involuntariamente respira alguma quantidade de haxixe que outros consomem. À saída da discoteca tem um acidente de que não tem culpa mas, após análises, detecta-se uma quantidade ínfima de haxixe no sangue, embora insuficiente para alterar o estado comportamental do indivíduo. Deve ser ele condenado? Lei é lei dirão alguns, mas será a lei insofismável e justa?

  16. O certo seriam o mesmo tratamento (recolhas de amostras, níveis das analises, etc) para todo e qualquer ciclista do proTOUR (pelo menos). 
    Afinal, se um acusa, todos deveriam. 

  17. engraçado que não vi artigos de opinião sobre os 0,0000000005 do ciclista chinês da Radioshack… há dois pesos e duas medidas? Porque é que o Contador e o Li Fuyu têm tratamento diferentes? Se houver justiça, o Contador é suspenso e o titulo de 2010 é revogado. Temos pena mas não se pode fazer jurisprudência porque um atleta tem um nome mais sonante do que outro.

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