Héctor Guerra: “Queria muito correr a Vuelta”

Héctor Guerra conquistou a Volta ao Alentejo de forma exemplar, mostando-se mais forte do que os adversários mais directos nas duas etapas decisivas, o contra-relógio e a jornada de montanha. Para o futuro imediato, planeia preparar-se com afinco para atacar a Volta a Portugal. Em termos de carreira, lutará para um dia disputar a Volta a Espanha, ambição natural num corredor nascido do lado de lá da fronteira.
Depois do excelente desempenho no contra-relógio, confirmou a vitória na Volta ao Alentejo na etapa do dia seguinte. Como correu esse dia?

A etapa foi muito rápida. O final do percurso era muito duro. Na subida para o Cabeço de Mouro a LA-MSS acelerou muito o ritmo. No final, conseguimos manter a camisola amarela. O Koldo Gil fez uma óptimo trabalho na última subida e eu vinha a controlar o esforço e os tempos da fuga.
Não se preocupou com o avanço que o Bruno Pires conseguiu a dada altura?
O Bruno Pires chegou a ter minuto e meio de vantagem, mas eu tinha as referências de tempo. Era uma questão de arrancar mais tarde ou mais cedo. O Américo Silva comunicou-me que, a faltar um quilómetro, a diferença era de apenas um minuto e então esperei pelos 200 metros finais para atacar.
Esta vitória tem dedicatória especial?
É para a minha família e para a equipa que fez um trabalho impressionante.
Após bons desempenhos no Algarve, em Santarém e da vitória em Llodio, o triunfo no Alentejo.
É uma vitória muito importante. Já vem com uns anos de atraso, porque na altura não me deixaram vencer [NDR: Ainda Héctor Guerra corrida na espanhola Relax, fez um tempo tão rápido num contra-relógio no Redondo que acabou por ser desclassificado, porque, após protestos, entendeu-se não ser possível uma diferença tão grande para a concorrência]. Agora todos vêem os “cronos” que tenho feito, durante vários anos e ao longo da toda a época. Não guardo ressentimentos, são coisas que acontecem. Há que esquecer isso e saborear a vitória de 2008.
A Volta ao Alentejo será um prenúncio do que poderemos ver na Volta a Portugal?
A Volta é só em Agosto, ainda falta muito. Vou tirar uns dias de férias e depois voltarei a trabalhar intensamente para tentar conquistar a Volta a Portugal, que é a única corrida que tenho de ganhar este ano.
A responsabilidade de ter ganho no Alentejo é sua, porque a equipa queria que já tivesse parado depois da Volta ao Distrito de Santarém.
É a minha forma de estar no ciclismo. Quero tentar ganhar o máximo de corridas que consiga e é para isso que trabalho. Sentia-me bem e fiz questão de estar no Alentejo.
A preparação de pré-temporada, muito baseada no BTT e no ciclocrosse foi determinante para o bom arranque de época?
O início de época foi muito complicada. O meu pai teve um acidente bastante grave e passou um mês internado no hospital. Estive com ele, sempre a acompanhá-lo, e não pude treinar muito. Mal ele recuperou, dediquei-me intensamente ao trabalho. Fiz BTT e ciclocrosse, mais porque gosto dessas variantes do ciclismo. Acabou por ser muito bom para o meu desempenho na estrada e os resultados estão aí a prová-lo.
No imediato, pretende lutar pela Volta a Portugal já este ano. A nível de carreira, quais os grandes desejos que transporta?
Depois de ganhar a Volta a Portugal, queria muito correr a Volta a Espanha. Não podemos esquecer que sou espanhol e a Vuelta é a principal prova do meu país. Como está o ciclismo na actualidade, é pena que a Liberty Seguros não possa ser convidada para a Volta a Espanha. Fico-me, para já, com a Volta a Portugal, de que gosto muito.
Como vê o actual estado do ciclismo espanhol?
Está a passar por momentos muito complicados. Acho que em pouco tempo terá de mudar. De outra forma, o ciclismo profissional acaba por morrer no meu país. Estou convencido de que ficará melhor, porque é um desporto espectacular e tem muitos adeptos. Só pode melhorar.
Podemos dizer que o ciclismo português conseguiu melhorar muito relativamente ao espanhol?
Sim, o ciclismo português está a viver dias muito bons e está a apanhar o ciclismo espanhol. Mas o que todos desejamos é que a modalidade melhore tanto de um lado como do outro da fronteira, igualando-se ao ciclismo do resto da Europa.
Tem a ambição de chegar a uma equipa ProTour?
A minha intenção é fazer o melhor possível na Liberty Seguros, que me trata de forma espectacular. De futuro, não sei o que será da minha carreira. Neste momento, estou apenas concentrado em preparar-me para ganhar a Volta a Portugal.

Trabalho de José Carlos Gomes, publicado em 18 de Abril de 2008