Serafim Ferreira: “O Ciclismo é para homens de barba rija”

Serafim Ferreira. Director da Volta a Portugal durante duas décadas, está afastado da modalidade há sete anos. É céptico quanto ao futuro do ciclismo e propõe a saída da Volta a Portugal do calendário da UCI. Politicamente incorrecto, como é seu timbre, defende maior protagonismo dos corredores e menos “passagens de modelos”
Enquanto protagonista directo, como viu a evolução do ciclismo nas últimas décadas?
Há duas fases. Até ao Jornal de Notícias (JN) assumir a organização de provas, em finais dos anos 60, o ciclismo era amador. Havia muito boa vontade, mas faltava dinheiro. Com o JN a situação foi evoluindo, até ao ano 2000. Foi o último ano em que organizámos a Volta. Durante esse período a evolução foi lenta, mas segura.
Lembra-se das primeiras Voltas a Portugal que organizou?
As equipas eram quase todas amadoras. Com o tempo, o meio foi-se profissionalizando. O facto de o JN ter pegado em algumas provas levou a que, por arrastamento, as outras organizações também melhorassem.
Em 2000, o JN deixa de organizar a Volta, mas em 2001 ainda leva a cabo três provas. Depois disso sai de cena.
A partir daí não discuto em termos organizativos, nunca lá estive, nunca vi. Mas o que é certo é que o ciclismo deu vários passos atrás com a PAD. O ciclismo quase que ia acabando. Se não fosse o João Lagos, já não havia Volta a Portugal. A empresa do João Lagos tem de ter lucro e em Portugal dentro de pouco tempo deixa de haver patrocínios para o ciclismo. E isso ocorre porquê? Jornais nas provas, zero; rádio, zero; televisão, zero. A Volta, única prova mediática, reduzida de 15/16 dias para 11… Outro aspecto que não faz bem ao ciclismo português é o grande número de espanhóis, o refugo de Espanha, aqueles que mais ninguém quer vêm para Portugal. Onde está o progresso do ciclismo português nos últimos 7 anos?
E o que se poderia ter feito?
O maior erro não foi terem entregue a Volta a Portugal a outra organização, isso é natural e não vale a pena estar a discutir se foi bem ou mal feito. O maior erro foi terem corrido com os jornalistas das provas. Agora os jornalistas não vivem a corrida por dentro, vão da partida para a chegada. A PAD fez isso para esconder as suas fraquezas.
Em termos organizativos é possível comparar as organizações JN com as actuais?
Agora a organização tem meios logísticos de que eu não dispunha. Mas se tivéssemos continuado estaríamos ao mesmo nível ou melhor. Mas hoje quem vai à Volta diz-me que aquilo não é uma corrida de bicicletas. É uma festa, uns comes e bebes e passagem de modelos na partida e mais nada. Os ciclistas parece que andam ali a mais. No meu tempo, o ciclista era o actor principal. Hoje quem é notícia?
Isso não terá sido forçoso para adequar o ciclismo aos tempos modernos?
Qual quê! No estrangeiro os protagonistas continuam a ser os corredores. Em Portugal é que não. É a madame A ou a madame B. Falta compreenderem que o ciclismo não é o ténis, esse sim uma passagem de modelos. O ciclismo é para homens de barba rija, o que não significa que não apreçam essas damas. Não podem é ser os protagonistas principais.
Relativamente aos traçados que têm sido escolhidos nos últimos anos que balanço é que faz?
Não quero criticar a organização e compreendo as dificuldades que têm para fazer 11 dias. Mas o que é certo é que não criaram nada. Todos os anos a Volta é igual. Atacavam-me por não levar a Volta ao Porto. E desde que eu saí quantas vezes foi ao Porto ou a Lisboa?
No seu entender há uma procura de “explorar” as pequenas autarquias enquanto nicho de mercado?
São as únicas que ainda dão alguma atenção. Isso é a fraqueza do ciclismo. Se não houver ninguém que agarre o touro pelos cornos, o ciclismo faliu. É preciso que o senhor João Lagos dê dois murros na mesa e assuma ele a promoção do ciclismo em Portugal, deixando de andar a soldo dos senhores da UCI e do dr. Artur Lopes. Tem de dizer: “Quero uma Volta com 15 dias para correr Portugal inteiro e mobilizar esta gente toda”. Há em Portugal ciclistas suficientes para fazer a Volta fora do calendário internacional se não o deixarem fazer os 15 dias em consonância com a UCI. Com isso arrastaria multidões, teria mais receitas e audiências. Não tenho a menor dúvida.
Se fosse necessário optaria por retirar a Volta do actual escalão internacional?
Era a primeira coisa que eu faria.
Acredita no futuro do ciclismo?
Não acredito. Enquanto não mudarem mentalidades é impossível. O ciclismo vive de publicidade e esta é potenciada pelos órgãos de comunicação social. Se estes não vão, não há hipótese de sobrevivência.
Como se poderá chamá-los de novo?
Isso aí pergunte aos entendidos… Eu sei como faria.
Como seria?
Tem de me pagar para eu dizer… Quem anda no ciclismo ganha dinheiro, pergunte-lhes a eles. O meu ordenado era de jornalista do JN. Não ganhei um tostão com o ciclismo.
Mas pelo que diz, esses ganhos são precários e provisórios.
Sim, sim. Estou convencido de que a empresa João Lagos acaba por se cansar. Não vê frutos do seu empenhamento.
O que se vem verificando é um corte com a tradição de a modalidade ser suportada pela imprensa, ter os órgãos de comunicação social como organizadores de corridas.
O JN dava páginas inteiras. O Jogo, que era da mesma empresa, dava páginas. Isto obrigava os outros a dar também. Em Portugal acabaram com a ligação histórica entre imprensa e ciclismo. Agora as corridas são quase confidenciais, o que irá afastar os patrocinadores. Os melhores jornalistas deste país fizeram todos a Volta a Portugal, os jornalistas batiam-se entre si para ir à Volta. Agora não querem ir. Sabem porquê? Os jornalistas foram corridos do seio da prova, falta-lhes o cheiro das travagens, o acelerar das fugas. Falta a vivência, o perfume da corrida.
Por outro lado, as audiências da Volta a Portugal, em 2007, foram as mais altas dos últimos anos…
Mas são dez dias! E a Volta a Portugal não é o ciclismo.
Mas foi no seu tempo que se internacionalizou a corrida, o que obrigou à sua redução de dias.
Pelo contrário. Ainda eu era o director e já a Federação Portuguesa de Ciclismo e a União Ciclista Internacional queriam diminuir aos dias de competição e nós nunca deixámos. E dissemos sempre que no dia em que nos impusessem isso a Volta deixaria de ser internacional. Neste momento é internacional para quê? Que ciclistas de renome é que vêm cá?
Arrepende-se de ter contribuído para a internacionalização da Volta?
De maneira nenhuma, porque eu trazia cá excelentes ciclistas. Nos nossos últimos anos ganharam corredores estrangeiros. Agora vencem na mesma forasteiros, mas estão nas equipas portuguesas. Eu trazia cá dos melhores do Mundo, os que vêm agora é para passear. Quando eu fazia contratos com esses nomes, eles tinham de correr, se não ao terceiro dia podiam ir embora porque eu não lhes pagava.

Trabalho de João Santos e José Carlos Gomes, publicado em 6 de Fevereiro de 2008

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