Serafim Ferreira: “O ciclismo português é uma utopia”

Acha que há um problema de recursos humanos no ciclismo?
Sem dúvida. As pessoas são as mesmas há muitos anos. Veja há quantos anos está o presidente da federação nesse cargo. Os dirigentes são sempre os mesmos. Os técnicos das equipas, mesmo não sendo velhos, mantêm-se há anos. Os comissários são sempre os mesmos. Já eram maus no meu tempo, agora continuam na mesma – não aprendem!
Estaria disponível para voltar ao activo, com a sua equipa, para mudar o que entende estar mal?
Nenhum elemento que esteve comigo no JN está agora no activo no ciclismo. Vários foram convidados, com boas promessas de ordenados, e ninguém aceitou.
Se calhar, com um convite seu voltariam.
Uma pessoa só pode entrar num barco destes se tiver um suporte por detrás, era preciso ter o apoio de uma grande empresa jornalística, que garantisse apoio financeiro e visibilidade mediática. Com essas condições reunidas, brincava com a federação e com a UCI. O ciclismo português tem especificidades muito próprias: não tem dinheiro, não tem corredores, não tem nada. O ciclismo português é uma utopia. O pouco que existe é fruto do entusiasmo de poucas pessoas.
O regresso dos clubes grandes poderia dar novo impulso?
Houve uma época em que achei que não. Actualmente, tenho dúvidas. Não sei se um eventual regresso do FC Porto e do Sporting resolveria alguma coisa. É certo que trariam mais gente à estrada, mas criavam problemas decorrentes das rivalidades, que hoje se manifestam no futebol e que contribuiriam para uma descredibilização ainda maior do ciclismo.
Há falta de novas figuras por falta de matéria-prima ou até há bons ciclistas que têm pouco destaque porque a cobertura das provas é diminuta e os feitos são pouco projectados?
Também é verdade que as vitórias são quase clandestinas. Mas, por exemplo, o Nuno Ribeiro ganhou uma Volta e nunca mais fez nada. O José Azevedo podia ter uma carreira brilhante, mas preferiu ser aguadeiro… São opções. A verdade é que poucas vitórias teve. Falta-nos uma figura a sério, que se imponha. Isto com um Agostinho…
Como vê a vinda para Portugal de corredores citados na “Operação Puerto”?
Somos o estertor, apanhamos o lixo todo. Não sei se esses rapazes estavam envolvidos ou não. E venha o primeiro ciclista que me diga a mim que nunca tomou nada. Chamo-lhe mentiroso. No entanto, esses espanhóis, que ninguém quer em lado nenhum, vêm para cá porquê? Porque somos uma merda. O ciclismo tem voltar a crescer e não é com esses gajos, que vêm cá só para sacar o deles. Assim não vamos a lado nenhum.
O seu discurso é muito pessimista. Acha que o ciclismo ainda faz sentido e ainda é popular?
Nada que se compare com o passado. Sou do tempo em que milhares de pessoas iam para a porta do JN ler no painel quem passou primeiro na Vidigueira. Isso acabou. As rádios já não dão as reportagens em directo. Nas chegadas há pouco público. Até com o “zé pagode” correram.
Que grandes memórias guarda do ciclismo?
Lidei com “n” presidentes da federação. Com todos me dei bem e de todos fui grande amigo. Sou amigo do Artur Lopes, porque digo mal dele. Mas eu digo mal dele é como dirigente, não é como pessoa. Ele como presidente da federação é um bom cirurgião, porque é um atraso de vida para o ciclismo português. Isso acontece desde que foi para a UCI.
Tem um discurso pessimista, mas seria necessário encontrar uma solução para que daqui a dez anos pudéssemos falar na Volta a Portugal como o grande acontecimento desportivo do Verão.
A Volta a Portugal não tem mais de cinco anos de vida, se a modalidade continuar como está. Ou o João Lagos abre os olhos e impede os senhores da federação de mandar ou acaba a Volta a Portugal. Sei que o contrato para organização da Volta foi renovado até 2013. São os tais cinco anos de vida. O senhor João Lagos, que é um homem de prestígio, quantas vezes aparece na Volta a Portugal? Isso é significativo.

Trabalho de João Santos e José Carlos Gomes, publicado em 6 de Fevereiro de 2008

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