Passaporte biológico diminuiu recurso à dopagem sanguínea

A introdução do passaporte biológico, em 2008, fez cair o recurso à dopagem sanguínea no ciclismo. Esta é a principal conclusão que se pode retirar da comunicação apresentada na noite de ontem por Mario Zorzoli, conselheiro científico da União Ciclista Internacional (UCI), no colóquio “Onda Azul Antidopagem”, que se realizou em Viseu.

Intervindo sobre a experiência de aplicação do passaporte biológico ao ciclismo, o médico explicou que as análises feitas ao longo dos anos aos corredores das equipas de todo revelam diferentes perfis de reticulócitos, que são glóbulos vermelhos jovens, cuja presença excessiva indicia recurso a transfusões sanguíneas e/ou administração de EPO.

O italiano afirmou que, antes da criação dos testes de detecção de EPO, as análises aos ciclistas revelavam valores elevados de reticulócitos, sobretudo nos testes feitos em competição. Quando passou a ser possível detectar EPO, os reticulócitos começaram a cair nos testes feitos em competição, mas subiram exponencialmente quando as amostras eram recolhidas fora de competição, o que indiciava recurso a novas técnicas de dopagem, durante os períodos de preparação e não em competição. A introdução do passaporte biológico voltou a modificar os dados: diminuiu drasticamente a quantidade de casos de reticulócitos em excesso, tanto em competição como fora de competição.

Enquanto método indirecto de detecção de violações dos regulamentos, porque não detecta substâncias mas recolhe indícios, que têm de ser validados por peritos para darem lugar as sanções, o passaporte biológico tem mostrado, na opinião de Zorzoli, ter múltiplas valências. Torna-se dissuasor do recurso à dopagem, permite encontrar infractores através dos perfis criados e, nos casos em que os perfis não são conclusivos, coloca alguns corredores sob suspeita, passando a incidir sobre eles controlos mais apertados que já têm permitido encontrar alguns positivos.

O colóquio “Onda Azul Antidopagem” contou ainda com as intervenções do presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP), Luís Horta, e da responsável da UCI pelo combate à dopagem, Francesca Rossi. A transalpina lembrou que os batoteiros continuam um passo à frente: “Enquanto o antidoping está na superfície, o doping já está num nível mais profundo”.

Para mudar essa situação, Luís Horta defendeu, antes de mais, a necessidade de “mudar a cultura segundo a qual não é possível fazer ciclismo de estrada ao mais alto nível sem dopagem”. Enquanto as mentalidades não mudam, o dirigente da ADoP pugna pela compressão de alguns direitos dos desportistas, como o direito à privacidade. Na opinião do especialista, é necessário o cruzamento de dados de desportistas entre as diversas instituições internacionais que combatem a dopagem, além de ser essencial o controlo da localização dos desportistas. Tudo isto são “imensas invasões da privacidade dos desportistas”, pelo que estes métodos devem ser utilizados segundo o “princípio da proporcionalidade”, algo que Luís Horta entende que tem sido cumprido.

Para o futuro próximo, o presidente da ADoP promete uma novidade, acordada em reunião com os ciclistas profissionais portugueses. Os corredores vão poder fazer por sms alterações à localização, sempre que se afastem do local indicado no respectivo formulário.

O colóquio “Onda Azul Antidopagem” atraiu mais de uma centena de pessoas, que acorreram ao Solar do Vinho do Dão para participarem na jornada de reflexão.

4 comentários a “Passaporte biológico diminuiu recurso à dopagem sanguínea”

  1. o seu comentário só pode ser para ” RIR ”
    O desporto deve ser praticado de uma forma saudável sem prejuízo para a saúde do praticante.

  2. Eu só queria dizer que acho que a maioria dos ciclistas faz uso de doping, e isso é injusto para os outros. Mas há uma forma de acabar com isso, era só legalizar o doping, entao aí sim, saberia-mos que estavam todos em pé de igualdade, e mesmo do ponto de vista sanitario, seria mais seguro para o ciclista se os consumos fossem acompanhados por um medico.Não acabava-mos com o doping, mas pelo menos teriamos uma competição justa.É como dizem “Quando a montanha não vai a Maomé, vai Maomé a montanha.”

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