Artur Moreira Lopes: “A Polícia Judiciária investiga redes de doping”

Confirma que o ciclismo português está sob suspeita da União Ciclista Internacional (UCI)?
Confirmo. É um estudo que eu tenho. Sabemos que não há nenhum mecanismo cem por cento eficiente para lutar contra a dopagem, da mesma forma que não há políticas que impeçam os roubos, embora algumas possam diminuí-los. Mas há umas medidas mais eficazes do que outras. Neste momento, o mais fiável é o controlo fora de competição. Há anos, a dopagem usada eram estimulantes, que o atleta tomava na hora e que na hora saía. Neste momento, os métodos deixam depósito no organismo, o que é extremamente malévolo. Sabemos que não detectamos qualquer substância em competição. Temos de apanhar o atleta quando este está a fazer a tal “preparação científica” com hormonas de crescimento, corticóides, eritropoietina (EPO). Uma gama infindável de drogas muito pesadas, de uma manipulação difícil que serve para tratar situações graves. Neste caso, servem para actuar sobre a capacidade do atleta. Sabemos que a EPO é tomada para aumentar os glóbulos vermelhos e, por causa disso, fazer crescer o hematócrito (relação entre a parte sólida e a parte líquida do sangue). Com um hematócrito acima de 50, não se pode dizer que o atleta esteja dopado, mas há altas suspeitas de que assim seja, se não esteve em altitude, se não é bronquítico crónico, se não tem insuficiência respiratória. Como não se encontra nada de proibido, diz-se que o atleta está com um hematócrito capaz de lhe criar problemas. Mas sabemos que esse valor pode facilmente baixar com 250 centímetros cúbicos de soro fisiológico a correr durante meia hora. Apesar disso, há valores que dificilmente se manipulam. Estamos a falar dos reticulócitos. Estudando as análises que se fizeram nos vários países europeus, concluiu-se que os valores dos reticulócitos, primeiro dos portugueses e a seguir dos espanhóis, é sem sombra de dúvidas indicador de que houve prática de dopagem.
Esse estudo envolve quantos ciclistas portugueses?
Não sei o número de cor, mas foram todos os corredores portugueses submetidos a controlos fora de competição, tanto sob jurisdição de instituições nacionais como internacionais. É evidente que do ponto de vista absoluto, os espanhóis fizeram mais testes. Mas tendo em conta os casos de suspeitas de dopagem e o número total de controlos a percentagem é elevada. E Portugal é o país em que as análises mostram maior percentual de casos de alteração de reticulócitos. Em Portugal, há esse problema.
Que pode fazer a FPC para combater estes casos?
O que temos feito. No início do ano passado, fizemos uma reunião com representantes da Federação, das equipas, dos corredores e dos organizadores. Chegámos a um consenso de que os ciclistas, tal como os outros desportistas profissionais, teriam de preencher o formulário de localização, por indicação do CNAD (Conselho Nacional Antidopagem). O representante dos corredores saiu daqui sem dizer nada e, passado algum tempo, recebemos da Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) uma queixa feita pela Associação Portuguesa de Ciclistas Profissionais, alegando que a privacidade, isto e aquilo era posto em causa com o formulário de localização. Fomos multados em 4 mil euros. Isto é quase uma brincadeira. Pedi mais controlos antidopagem fora de competição: à UCI, à Agência Mundial Antidopagem (AMA) e ao CNAD. Pedi à CNPD autorização para disponibilizarmos a nossa base de dados ao CNAD. Já fomos autorizados. O Comité Olímpico já pediu à CNPD para disponibilizar o formulário de localização a todos os atletas. Agora, após as inscrições, vamos reunir as equipas e ver se conseguimos um código de ética. Porque isto tem de acabar! A situação mata o ciclismo e os primeiros a sofrer são os corredores.
Há bocado referia a diferença entre o doping de antigamente, que rapidamente saía do organismo, e o actual, que deixa marcas profundas. Que consequências a médio prazo para a saúde dos atletas?
O CNAD fará uma brochura indicando os efeitos das várias práticas dopantes. As hormonas provocam infertilidade a curto prazo no homem e o aparecimento de tumores nos testículos. Os esteróides podem levar problemas de hipo-funcionamento da supra-renais posteriores. A EPO provoca insuficiências renais. Fora neoplasias (tumores) associadas. É evidente que tudo isto acontecerá. Tomam-se drogas que deixam marcas no organismo. Os corredores têm de perceber isto e que além do desporto e dos resultados está a saúde do homem, que tem de ser defendida.
O dossiê com o estudo da UCI chega-lhe às mãos quando?
Já tenho conhecimento dele desde Setembro. O presidente da UCI, Pat McQuaid, chamou-me e mostrou-me o estudo. Disse-lhe que temos lutado, que o CNAD também o tem feito, os directores das equipas também… O único senão são os representantes dos corredores, que pararam o formulário de localização, que é fundamental. No futebol, toda a gente sabe onde está a equipa a treinar, mas no ciclismo não se sabe onde anda o corredor se se lhe quiser fazer um controlo fora de competição.
Já fez chegar o documento à Secretaria de Estado do Desporto?
Na Conferência Antidopagem de Madrid, o secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Laurentino Dias, esteve presente e falou com o médico da UCI Mario Zorzoli, autor do estudo. O dr. Laurentino Dias pediu uma cópia do estudo, como o Mario Zorzoli não a tinha, naquele momento, combinou que eu seria portador desse documento e que entregaria um na Secretaria de Estado e outro no CNAD. Assim foi. E nem falei ainda com o secretário de Estado sobre o assunto.
Que consequências se esperam?
Implicará um esforço do CNAD e, se calhar, da AMA e da UCI para aumentar os controlos fora da competição em Portugal. A Federação não tem mais força do que isto. Gostava que se fizessem mais controlos fora de competição, mas quanto custa isso? É preciso a deslocação de um médico que, por vezes, passa um dia inteiro fora e nem sempre consegue fazer o controlo, porque o alvo do controlo se escondeu ou manda dizer que não está. Isto são custos muito grandes.
Como é que os ciclistas conseguem aceder a produtos proibidos?
Eu agradecia que os senhores me explicassem… Falamos de EPO e de outras substâncias sobre as quais há controlo por parte do Infarmed. Este instituto, por vezes, consegue determinar de que farmácias hospitalares terá desaparecido alguma substância. Apenas isso. Por outro lado, até pela Internet se consegue obter esses produtos. Há mais de um ano que há investigações judiciais por causa disso. A Polícia Judiciária está a investigar redes de contrabando destas drogas. Já por mais de um vez fui interrogado pela Polícia Judiciária para ajudar a esclarecer situações que eu nem fazia ideia de que existiam.
É surpreendido muitas vezes com esquemas ardilosos que nem imaginava possíveis?
Há dias estava aqui numa reunião e contei um caso que, para mim, era novidade, mas todos os outros presentes se começaram a rir e disseram: “A gente já sabe isso”. Tratava-se da acusação de um corredor de uma equipa portuguesa que se queixa de que não lhe pagavam o que estava contratualmente previsto, uma vez que parte do dinheiro teria de ficar retida para comprar determinados medicamentos. O corredor enviou um e-mail a uma pessoa em França para saber o que era e foi informado de que seria EPO, (salvo erro, era essa a substância).
Daí deduz-se que há um esquema montado para fornecer drogas aos corredores. Parece uma espécie de “Operação Puerto”, embora em outra escala.
A “Operação Puerto” é uma questão civil: é a polícia e os tribunais civis que actuam. É um caso que corre Mundo, mas depois de levantar toda esta celeuma, o caso acabou… Não há razão para continuar, dizem os juízes. E agora entregam o caso à justiça desportiva, como quem diz: “Nós arranjamos este problema, vocês desenrasquem-se”.
A legislação portuguesa é suficiente para combater casos de tráfico de doping?
Não sei se será, porque não sou jurista. Mas penso que há que aprofundar mais a legislação, de modo a tornar mais eficiente o combate ao tráfico de produtos dopantes, tal e qual como se passa com outras drogas.
Apesar disso, há investigações no terreno.
Disso tenho eu a certeza. Aliás, tenho alertado o mundo desportivo. A última coisa que gostaria de ver era algo que parecido com a “Operação Puerto” em Portugal. Gostava que tudo se conseguisse resolver pelo mundo desportivo e que se avançasse sem necessidade de intervenção das instâncias civis.
Pela leitura que faz, há o risco de haver uma operação policial/judicial na área do ciclismo?
Eu tenho muito medo. Antes da Volta a Portugal alertei para o caso. Felizmente correu tudo bem, embora haja estudos que estão a ser feitos a alguns controlos.
Em Portugal aplicar-se-á a disposição de redução de penas por confissão e denúncia de redes montadas?
A Federação ouve sempre os atletas. Mas um problema colocado pelo advogado que ouve os ciclistas é recorrente: “Nunca ninguém sabe nada”. Se sabe, não diz. Se dissesse poderia ser englobado nessa redução de pena. Quando 90 por cento estiver do lado certo, são eles que não autorizam os outros dez por cento. Se calhar, neste momento, o equilíbrio é outro. Ainda haverá o medo: “E se eu digo, como é?”.
Está convencido de que a maior parte do pelotão toma “qualquer coisa”?
Não digo que será a maior parte, mas de acordo com o que vimos há muita gente que toma.

Trabalho de João Santos e José Carlos Gomes, publicado em 19 de Dezembro de 2007

2 comentários a “Artur Moreira Lopes: “A Polícia Judiciária investiga redes de doping””

  1. Isto está podre; estes irresponsáveis não percebem que para além de adulterarem resultados desportivos e prejudicar a sua saúde, estão a acabar aos poucos com este desporto e a aniquilar as perspectivas de jovens corredores; quantos ciclistas não ficaram já sem equipa por não conseguirem resultados por estarem a competir em condições desiguais ou por as equipas desaparecerem devido a escândalos de doping, e qual é o patrocinador que se vai querer meter nisto?

    este estudo não surpreende rigorosamente nada, com juniores, cadetes e veteranos dopados, o panorama no profissional teria necessariamente de ser ainda pior, que isto é coisa que vem de cima para baixo e não e contrário, e de tão disseminado que está só prova que o acesso é fácil. como foi possível chegar a esta situação sem que ninguém tivesse percebido? ninguém excepto nos bastidores onde as suspeitas eram mais que muitas…

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