Artur Moreira Lopes: “Acho que é possível um ciclismo limpo”

Artur Moreira Lopes crê que é possível fazer com que o ciclismo deixe de ser uma modalidade marcada pelo doping. Para isso, defende que será necessário que todos os intervenientes, olhos nos olhos, decidam pôr fim ao flagelo. O presidente da Federação adianta que houve cinco controlos positivos em Portugal, em 2007, sendo três de corredores profissionais [o caso de Pecharromán, por ter sucedido numa corrida espanhola, não entra nesta contabilidade]. Artur Lopes revela que há um caso de testosterona que está ainda em fase de estudo, de modo a determinar se será uma produção excessiva do organismo do atleta ou se é um caso de doping.
O espectáculo pode tornar-se mais pobre sem recurso à dopagem?
As grandes subidas na Volta a França fazem-se hoje a uma média inferior em um ou dois quilómetros por hora. Para o espectáculo, porque os espectadores não têm conta-quilómetros nos olhos, tanto faz que se suba a 30 km/h como a 28 km/h. O espectáculo é a luta entre um ciclista e outro. O que é preciso é que o indivíduo que é mais fraco compense com trabalho e treino. O desporto é isto. Se estão no mundo do desporto têm de aceitar a regra básica: haverá sempre um mais forte e um mais fraco. Se se drogam todos, o mais forte tem sempre vantagem. Se ninguém se droga, o mais forte tem na mesma vantagem. É igual. O que não pode ser é o mais fraco querer ultrapassar-se por meios que o levarão a estados muito graves no futuro. Quando todos tomarem consciência disto e disserem “Paremos!”, o espectáculo é o mesmo, a beleza é a mesma e os vencedores serão provavelmente os mesmos.
Isso é uma situação perfeitamente lógica. Por que ainda não acontece assim?
Porque desde o princípio há uma cultura diferente. Os grandes atletas deixam marcas. No ciclismo tivemos um, Jacques Anquetil, que deixou uma frase do piorio e que ainda hoje é muito repetida: “Não é com bifes e água que se sobem montanhas”. Sendo um atleta de eleição que era, precisava era de ter uma vida mais regrada. Era um superdotado, não precisava de tomar nada.
Em média quantos controlos se fazem por ano em Portugal no ciclismo?
Não tenho esse número de cabeça, mas sei que em 2007 o ciclismo e o atletismo foram as segundas modalidades mais controladas, logo atrás do futebol.
Quantos casos positivos houve no ciclismo português este ano?
Um caso com EPO [Sérgio Ribeiro], outro com nandrolona [Márcio Correia] e outro com efedrina [Virgílio Neves]. Há dois casos que surgiram recentemente, fora do ciclismo profissional, e há outro que ainda está em estudo, para determinar se se trata de testosterona produzida pelo organismo ou não.
Que impacto poderá ter em Portugal o “passaporte biológico”, tendo em conta que só o Benfica a ele estará obrigado?
Se eu pudesse, era aplicado a todos os ciclistas. Para sua própria defesa. Mas isso envolve muitos aspectos. Por exemplo, seria necessário que todos, olhos nos olhos, estivéssemos de acordo. Mas a verdade é que se todos estivéssemos de acordo já o problema estaria resolvido. Por exemplo, sou capaz de apontar pelos dedos de uma mão as equipas profissionais portuguesas que fariam o mesmo que o Benfica fez com o Sérgio Ribeiro e com o José Pecharromán. As outras, se calhar, não faziam. Porque, se calhar, estão de conluio.
Acha que é possível um ciclismo limpo?
Eu acho que é possível! Apesar dos maus resultados das análises em Portugal, suponho que há muito mais consciencialização do que havia anteriormente. Estou convencido de que é possível avançar para uma limpeza ainda maior. Não digo que chegaremos a cem por cento, mas no dia em que estivermos na casa dos 90 por cento estaremos bem. Nessa altura serão eles próprios que querem escorraçar os outros dez por cento.
Há tempos dizia que há uma cultura de dopagem. Como se combate isso?
Se me explicarem como o poderei fazer, usarei todas as minhas forças para isso.
Um caso de dopagem acaba por ter mais impacto quando acontece no ciclimo. Esta associação já não foi longe de mais?
Essa associação continua e não será fácil de quebrar. Neste momento começam a surgir casos noutras modalidades e começa-se a ver que outros desportos têm este mesmo problema. É preciso lutar contra o doping e falar pouco de doping. O ciclismo não pode ser notícia apenas por causa do doping.
As equipas e os patrocinadores deveriam ter outra responsabilidade perante os fenómenos de dopagem?
Todos os patrocinadores dizem que não querem ver ninguém dopado na equipa e ameaçam deixar o ciclismo se aparece algum caso. Mas quando a equipa não apresenta resultados pede contas por não ganharem. O patrocinador tem a responsabilidade de dizer assim: “Transportem a nossa imagem de maneira livre e limpa. A vitória surgirá ou não, mas quero é que tentem, se esforcem e trabalhem de forma honesta”.
Essa maneira responsável de estar no ciclismo tem possibilidades de vingar em Portugal?
Há um bocado a necessidade de resultados seja a que preço for… Mas se o preço surgir é muito fácil sacudir a água do capote. O doping é um processo muito complexo que tem a ver com a parte intrínseca do indivíduo e com a vertente extrínseca, dos estímulos externos que se recebe do treinador, do patrocinador e do próprio país. Há uma série de pressões que se abatem sobre o corredor e este tem de ser firme. Ou então tem de estar inserido na tal equipa que lhe diz que não precisa de ganhar, tem é de lutar por meios lícitos. Aí o atleta fica confortável.

Trabalho de João Santos e José Carlos Gomes, publicado em 19 de Dezembro de 2007