Luís Horta: “O CNAD protege os ciclistas”

O presidente do Laboratório de Análises e Dopagem (LAD) e principal referência do combate ao doping em Portugal, Luís Horta, concedeu uma entrevista ao Jornal Ciclismo – via correio electrónico -, na qual lembra que as análises e a acção do Conselho Nacional Antidopagem (CNAD) existem para proteger os ciclistas e outros desportistas. Sem tabus, Luís Horta fala das substâncias mais em voga e das dificuldades de detecção das mesmas. Esperançado na eficácia das mais recentes medidas e agradado com o comportamento da Federação Portuguesa de Ciclismo, Luís Horta confia na obtenção de resultados e na mudança de mentalidades.

O recurso ao doping é uma prática generalizada na alta competição ou é um comportamento marginal e minoritário?

Não há dados que suportem uma resposta devidamente fundamentada. Levando em consideração a percentagem de casos positivos nos controlos realizados a nível mundial (entre 1,5 e 2%), poderíamos pensar que o comportamento fosse marginal. No entanto, as violações às normas antidopagem descobertas nos últimos anos, fruto sobretudo de investigação policial, demonstram que a percentagem de atletas que utilizam substâncias dopantes é superior à referida acima.

O ciclismo é uma modalidade em que o recurso à dopagem está mais enraizado do que noutras?

Sim, o ciclismo integra desde há muitos anos o Grupo A do Plano Nacional Antidopagem, grupo que corresponde às modalidades onde se considera que o risco de utilização de substâncias e métodos proibidos é mais elevado. No ciclismo, é exigido aos praticantes um rendimento desportivo superior às suas capacidades fisiológicas, o que potencia o recurso a substâncias dopantes e a ideia de que não é possível vencer sem a utilização das mesmas.

O ciclismo, no seu entender, está mais limpo do que em anos anteriores, após casos Festina, “Operação Puerto” e similares? Por outras palavras, acha que a Volta a França, em 2007, foi mais “limpa” do que em anos anteriores?

Sinceramente, não penso que a Volta à França em 2007 tenha sido mais limpa que as edições anteriores. Julgo que a UCI ainda não desencadeou as iniciativas ideais para prevenção da dopagem, principalmente as que passam por uma politica agressiva e inteligente de controlos fora de competição.

Que substâncias e métodos proibidos estão mais em voga no desporto em geral e no ciclismo em particular?

Neste momento, as substâncias que eventualmente estão a ser mais utilizadas no ciclismo são a eritropoeitina, a hormona do crescimento, alguns esteróides anabolisantes, os glucocorticosteróides e alguns estimulantes.

Em relação aos métodos, estão a ser utilizadas as transfusões sanguíneas, principalmente as transfusões autólogas. Qual a taxa de hematócrito média de um desportista de alta competição?

Porquê o limite de 50% de glóbulos vermelhos no sangue? Esta pergunta não tem uma resposta tão simples como a sua formulação pode levar a crer. A taxa de hematócrito depende de múltiplos factores, tais como o género do atleta, o tipo de modalidade que pratica, a altitude do lugar geográfico onde ocorreu a sua gestação ou onde reside e treina. De certo que a taxa média de hematócrito está abaixo dos 50%. A taxa de 50% foi definida pela União Ciclista Internacional e por outras federações internacionais, há alguns anos, como um limite de segurança para a saúde, não permitindo que atletas com taxas superiores a esse valor possam competir.

Como pode um atleta ultrapassar o limite de hematócrito, sem um historial de valores altos, sem ter feito um estágio em altitude e sem ter tomado substâncias dopantes?

Nalguns casos muito particulares, os atletas podem ter valores superiores a 50% que se explicam por uma situação puramente fisiológica. No entanto, estes casos são muito raros, acontecendo por exemplo em atletas etíopes e quenianos cuja gestação se deu em altitude e que viveram durante longos períodos da sua vida nessas condições.

Estabelecer um limite como aquele de hematócrito não é o mesmo que dizer: “façam o que quiserem desde que não passem este tecto”? Sendo assim, que legitimidade há para impedir um desportista de fazer o que quiser desde que não ultrapasse o limite legalmente estabelecido?

A taxa de 50% não é, de forma alguma, a solução ideal para o problema. Trata-se unicamente de um limite de segurança. Se um atleta apresenta habitualmente no seu perfil fisiológico uma taxa de hematócrito de 42%, uma estratégia de aumento dessa taxa, seja pela utilização da eritropoeitina seja pelo recurso a transfusões sanguíneas, de modo a conduzir a mesma para junto do valor limite de 50%, é uma estratégia que põe gravemente em risco a saúde do atleta, para além de ser uma violação de uma norma antidopagem.

O aumento dos testes fora de competição pode ser considerado a mais eficaz ferramenta no combate antidopagem? Quais os maiores obstáculos com que se deparam os inspectores médicos do CNAD em controlos efectuados em Portugal e no estrangeiro?

Sem dúvida que os controlos fora de competição são um instrumento fundamental na luta contra a dopagem. As maiores dificuldades estão nas fragilidades ainda existentes no Sistema de Localização e nas estratégias a que muitos ciclistas recorrem para evitarem serem controlados sem uma justificação atendível para esse facto.

O CNAD tem previsto um aumento substancial deste tipo de acções antidoping em 2008?

O CNAD aumentou substancialmente o número de controlos fora de competição nas semanas prévias às grandes competições internacionais disputadas no nosso país em 2007, fosse por iniciativa própria ou em resultado da cooperação mantida com a União Ciclista Internacional. O CNAD irá desenvolver uma estratégia de controlos fora de competição em 2008 de acordo com os critérios por si definidos, com a cooperação constante da UCI e com base nas informações que for obtendo ao longo do ano.

Quanto custa um controlo fora de competição em Portugal e quem o pode fazer?

Os controlos fora de competição são muito dispendiosos. O seu custo é muito variável, podendo ir de 250 euros para um controlo sem detecção de eritropoeitina, realizado junto do domicilio do Médico Responsável pelo Controlo de Dopagem (MRCD), até um valor que pode ultrapassar 2500 euros, para um controlo com detecção de eritropoeitina, implicado colheita de sangue e urina, num local distante da residência do MRCD e após várias tentativas falhadas. Para controlos realizados fora do nosso país, por solicitação da UCI ou da Agência Mundial Antidopagem, poderão inclusivamente ocorrer custos ainda mais elevados, fruto das viagens de avião que têm de ser realizadas.

Alguns atletas consideram que os formulários de localização afectam a sua vida privada. Mas já há quem defenda a localização por GPS. Faz sentido este tipo de métodos?

Penso que se os atletas se queixam que o actual sistema invade a sua privacidade, um sistema baseado em localização por GPS se revelaria muito mais gravoso. O sistema actual não põe, de forma alguma, em causa direitos fundamentais dos atletas e tal como já foi afirmado por um acórdão recente de um tribunal civil espanhol. De futuro, desejamos uma maior colaboração dos ciclistas portugueses, o que não tem acontecido até este momento. Este sistema tem como único objectivo a defesa dos próprios ciclistas, garantindo aos que não se dopam que podem lutar de igual modo pela vitória final.

Faz sentido fazer um controlo antidoping fora de competição depois, por exemplo, das 21 horas?

Habitualmente, o CNAD não notifica atletas para um controlo fora de competição após as 21 horas, pois o descanso do atleta deverá ser respeitado. No entanto, em casos muito especiais, essa situação pode ocorrer. Por exemplo, quando o médico já tentou sem sucesso e por diversas vezes controlar o atleta a outras horas. Os controlos podem, no entanto, prolongar-se muito para além das 21 horas se um controlo iniciado, por exemplo, às 20 horas, se prolongar pelo facto de o atleta não conseguir fornecer a amostra de urina ou se fornecer uma amostra sem as características de densidade ou pH urinários exigidos por lei.

A “Operação Puerto” pode ter ramificações, extensões ou atletas envolvidos em Portugal?

Só muito dificilmente a “Operação Puerto” não teria ramificações em Portugal, isto é, que atletas portugueses do ciclismo, atletismo e, eventualmente, de outras modalidades, não utilizassem os serviços do Dr. Fuentes. Não tenho informações sobre o tráfico de substâncias dopantes em Portugal, no entanto o CNAD tem uma estreita relação com as instituições responsáveis por esta área no nosso país, tendo sido, por exemplo, recentemente desmantelada em Portugal uma pequena empresa domiciliar que comercializava substâncias dopantes via internet.

A lei portuguesa é suficientemente dissuasora para o tráfico de substâncias dopantes?

A lei contra a corrupção no desporto em vigor no nosso país tem um artigo dedicado a esta temática, que prevê penas de cadeia até dois anos para os prevaricadores, mas a próxima lei de luta contra a dopagem, que incorporará os princípios da Convenção Internacional Contra a Dopagem da Unesco e do Código Mundial Antidopagem no seu articulado, irá reforçar as medidas legislativas relativas a esta matéria.

As federações desportivas são compreensivas com a acção do CNAD?

A Federação Portuguesa de Ciclismo tem colaborado o suficiente? Sinto que há um respeito e consideração cada vez maiores pelo trabalho do CNAD, não só por parte dos atletas, mas também por parte do seu pessoal de apoio, das federações desportivas, do Comité Olímpico de Portugal e da Confederação do Desporto de Portugal, assim como do público em geral. Esta minha afirmação não tem uma base meramente empírica, antes se fundamenta nos múltiplos inquéritos que o CNAD realiza junto dos atletas e das federações. Penso que hoje qualquer pessoa que esteja ligada minimamente ao fenómeno desportivo conhece, ou pelo menos já ouviu falar, do trabalho do CNAD. Em relação à Federação Portuguesa de Ciclismo, tem havido uma colaboração excelente nos últimos anos, tendo em muitas ocasiões a federação tido a coragem de propor ou de acolher iniciativas inovadoras no âmbito da luta contra a dopagem. No ciclismo, no entanto, falta-nos dar ainda um passo muito importante: os ciclistas têm que olhar para o CNAD como uma instituição que os protege e não como uma instituição que os persegue. Penso que esta mentalidade está a modificar-se e irá inverter-se a partir do momento em que os ciclistas comecem a sentir na pele os resultados negativos da utilização de substâncias e métodos dopantes, verificando que aqueles que no passado lhe prometiam a glória, afinal não passavam de banais vendedores da banha da cobra, usufruindo de mais-valias à custa dos próprios ciclistas.

Trabalho de João Santos e José Carlos Gomes, publicado em 19 de Dezembro de 2007