Luís Horta: “O passaporte será ferramenta fundamental na luta contra a dopagem no ciclismo”

Luís Horta garante que o Laboratório de Análises e Dopagem (LAD) está mais do que preparado para o crescimento do número de testes, decorrente da introdução do chamado “passaporte biológico”. Além disso, o presidente do LAD afirma que a luta contra a fraude desportiva está a ganhar terreno àqueles que vivem á custa do doping.
Em 2008 introduz-se no ciclismo o chamado “passaporte biológico”. Qual a sua opinião sob a eficácia deste novo tipo de procedimento?
O passaporte biológico, ao ser implementado com o respeito integral dos princípios que para o efeito foram definidos, será uma ferramenta fundamental na luta contra a dopagem no ciclismo. Este passaporte visa estabelecer o perfil fisiológico de cada atleta, em termos de determinados parâmetros sanguíneos e urinários, de forma a poder estabelecer e comprovar desvios aos mesmos. Por exemplo, o atleta que normalmente tem 42% de hematócrito, jamais poderá ter, com este novo sistema, um hematócrito de 49%.
Qual o papel de Portugal, nomeadamente, do laboratório que preside na execução deste novo tipo de procedimento?
O LAD e o CNAD estão apetrechados e prontos para poder iniciar esta nova estratégia, tendo já havido contactos para iniciarmos uma cooperação com a UCI a partir do início de 2008.
O perito dinamarquês Rasmus Damsgaard considera que a Agência Mundial Antidopagem (AMA) não tem capacidade para responder ao acréscimo de controlos resultante do “passaporte biológico”. Como responsável da subcomissão dos Laboratórios da AMA, como comenta?
Não estou de acordo com o perito dinamarquês, pois o sistema de luta contra a dopagem está preparado, a nível mundial, para responder em tempo útil a estas novas solicitações. O LAD, por exemplo, em termos de análise de parâmetros sanguíneos, está neste momento a trabalhar a 10% da sua capacidade total.
Como avalia a evolução cronológica da dopagem: das anfetaminas e dos esteróides à dopagem sanguínea, à EPO, às transfusões, às microdoses, dir-se-ia que cada geração tem uma metodologia própria?
Embora haja uma evolução com o aparecimento de novas drogas, muitas vezes a história repete-se. Por exemplo, as transfusões sanguíneas, que foram utilizadas no meu tempo como atleta, nos anos 80 e 90, estão neste momento a ser amplamente utilizadas, pois os atletas ao saberem que a metodologia de detecção de eritropoeitina é eficiente, tentam sempre encontrar um método alternativo de mais difícil detecção. As velhas anfetaminas e os glucocorticosteróides continuam a ser utilizados, tal como nos anos 60, pois são aquelas que são acesso mais fácil aos atletas com menor poder económico. As manipulações físicas e químicas, tão utilizadas no início da luta contra a dopagem, reapareceram em grande força nos Jogos Olímpicos de Atenas, quando todos pensavam que estavam completamente enterradas. Nunca me iludi nesta matéria: temos que estar atentos, não só ao que se passou no passado e ao que eventualmente se irá passar no futuro. Hoje em dia, é igualmente típica a utilização de moléculas que saíram do mercado há muitos anos, devido à farmacovigilância ter demonstrado que causavam graves efeitos secundários e que são ligeiramente modificadas na sua estrutura química, acrescentando-se um novo radical, para poderem ser utilizadas como substâncias dopantes.
A grande utilização dos glucocorticosteróides deve-se a um exagero nas autorizações de utilização terapêutica?
A utilização de glucocorticosteróides é um problema gravíssimo no ciclismo. Primeiro porque a sua utilização é muito generalizada, suspeitando-se que muitas das autorizações de utilização terapêutica enviadas às entidades competentes visam única e simplesmente cobrir, através de uma via permitida, a utilização de glucocorticosteróides de forma sistémica. Segundo porque em estudos recentes, realizados pela Prof.ª Martine Duclos, em França, demonstraram efeitos secundários muito graves relativos à utilização continuada de glucocorticosteróides. Uma simples infiltração intra-articular de um glucocorticosteróide pode desencadear uma deficiente luta contra situações de agressão ao nosso organismo, o que pode causar a morte por uma incapacidade do nosso organismo responder a uma simples infecção, acto cirúrgico ou politraumatismo. A solução passará por uma escolha criteriosa dos médicos que trabalham no ciclismo, deixando de escolher para essas funções médicos de duvidosa capacidade profissional e desrespeitadores dos mais elementares princípios de ética profissional.
Ainda é válida a máxima segundo a qual as autoridades que lutam contra o doping andam sempre um passo atrás dos prevaricadores e que estes têm acesso a métodos novos e indetectáveis?
Essa realidade está cada vez mais esbatida, fruto do trabalho da AMA e das federações e governos de todo o mundo, que conduziu a uma tentativa de inversão da mesma. Um bom exemplo é o que se passa em relação à dopagem genética. Não temos conhecimento de que esteja utilizada, mas existe um grupo de trabalho na AMA dedicado a esta temática desde 2001 e grande parte dos 5,5 milhões de dólares americanos investidos anualmente pela AMA no financiamento de projectos de investigação são dedicados à investigação de métodos de detecção desta forma de dopagem.

Trabalho de João Santos e José Carlos Gomes, publicado em 19 de Dezembro de 2007