Luís Horta: Usam-se substâncias com “risco de morte”

Luís Horta crê que está demonstrado que a utilização de EPO e de outros métodos dopantes acarreta risco de morte para os atletas. O especialista critica os “vendedores de ilusões”, que levam os desportistas a dopar-se, na miragem de conseguirem melhores resultados.
Quais as substâncias mais facilmente disponíveis e difíceis de detectar no desporto em geral e no ciclismo em particular?
Neste momento, a hormona do crescimento e as transfusões autólogas são aquelas que requerem mais cuidados. A detecção da hormona do crescimento já está a ser realizada em alguns laboratórios. A sua detecção foi inclusivamente realizada durante a última Volta a Portugal em Bicicleta. Em relação às transfusões autólogas, está actualmente em desenvolvimento um projecto de investigação financiado pela Agência Mundial Antidopagem para a detecção deste método e está já disponível um método para detecção de transfusões homólogas, cuja implementação foi igualmente realizada durante a Volta a Portugal em Bicicleta em 2007.
Como podem responder os laboratórios às variantes e derivados dessas substâncias que, embora potenciem efeitos semelhantes, não se vislumbram nos testes ou não estão ainda integradas no código?
A detecção da hormona de crescimento vai ser dentro em breve generalizada a todos os 33 laboratórios acreditados a nível mundial pela Agência Mundial Antidopagem (AMA). É precisamente neste capítulo que a criação da AMA revolucionou as estratégias até então desencadeadas. A THG (tetrahidrogestrinona), por exemplo, uma droga sintética produzida ilicitamente pelo laboratório Balco, nos Estados Unidos, foi detectada numa seringa entregue por um treinador ao laboratório de Los Angeles e rapidamente o seu padrão foi sintetizado num laboratório de referência na Austrália. Este trabalho, fruto da cooperação entre a USADA, AMA e as autoridades australianas, levou a que pouco tempo após a sua descoberta todos os 33 laboratórios acreditados a nível mundial estivessem prontos para a sua detecção. Portugal, inclusivamente, chegou a reanalisar todas as amostras conservadas no LAD e que tinham sido recolhidas nos últimos 6 meses, tendo todos os resultados sido negativos.
O uso de EPO e o recurso a outros métodos para aumentar a taxa de hematócrito são práticas comuns no ciclismo e noutras modalidades. Pode dizer-se que, dentro de poucos anos, assistiremos a mortes precoces de alguns indivíduos que foram atletas de alta competição devido a este tipo de comportamentos?
Sem dúvida. Aliás, nem sequer é preciso falarmos do futuro, pois o presente já demonstrou o que é que estas substâncias podem causar, em termos de riscos para a saúde, nomeadamente o risco de morte.
Na sua opinião, qual a motivação de um atleta para recorrer ao doping, sabendo que, dessa forma, está a pôr em causa a sua saúde?
Muitas vezes, essa é uma reflexão que eu próprio faço. Os ciclistas, muitas vezes oriundos de classes socioeconómicas mais desfavorecidas, subestimam o risco da utilização destas substâncias, escutando acriticamente aqueles que promovem o seu tráfico, auferindo assim proveitos mensais que são muitas vezes superiores ao vencimento de um ciclista profissional. Outro dos factores que joga a favor dos vendedores da ilusão é o facto de os mais graves efeitos secundários destas substâncias só aparecerem 10 a 20 anos após a sua utilização.

Trabalho de João Santos e José Carlos Gomes, publicado em 19 de Dezembro de 2007