Defesa de Marcos Maynar insiste em tese rejeitada pelo TAD

José Antonio Garrido foi ouvido na qualidade de testemunha
José Antonio Garrido foi ouvido na qualidade de testemunha

A qualidade científica dos Laboratórios de Madrid e de Colónia e a imparcialidade do presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal, Luís Horta, foram hoje questionadas pela defesa do médico Marcos Maynar, na terceira sessão do julgamento em que o clínico espanhol e o director-desportivo português Manuel Zeferino são acusados da co-autoria de 16 crimes de corrupção de substâncias alimentares e medicinais e de administração de dopantes na extinta equipa LA-MSS. Parte dos argumentos hoje usados foram já rejeitados pelo Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), na decisão que condenou o corredor João Cabreira pela manipulação de amostra antidopagem com recurso a protease.

Os ataques aos peritos alemães, espanhóis e português estiveram a cargo de dois professores universitários espanhóis, colegas de Maynar na Universidade da Extremadura e indicados pelo médico como testemunhas. Argimiro Rodríguez e Guillermo Olcina dizem que as amostras de urina de João Cabreira e Rogério Batista não foram armazenadas nas condições ideais e apontam a alegada discrepância entre os resultados obtidos em Madrid e em Colónia relativamente à amostra de Batista.

Argimiro Rodríguez distingue entre a capacidade “analítica e a científica”, sublinhando que os resultados apresentados pelos resultados de Madrid e de Colónia que levaram à detecção de protease não são cientificamente válidos, pois não fazem uma completa identificação das enzimas em causa, podendo tratar-se de enzimas da mesma espécie, mas não serem a protease exacta descrita pelos laboratórios. Com esta tese, o especialista espanhol tentou desmontar a acusação no ponto em que esta identifica a protease detectada nas urinas de Cabreira e de Batista como sendo igual a uma das proteases apreendidas nas casas de outros corredores da equipa, assim como na habitação do médico. Ou seja, segundo o parecer de Argimiro Rodríguez, a protease contida nas urinas dos dois corredores pode não ser exactamente a mesma que outros elementos da equipa tinham em sua posse.

Guillermo Olcina colocou em causa a conservação das amostras antidopagem, considerando que as urinas foram sujeitas a temperaturas demasiado elevadas – deveriam ter sido congeladas, segundo o professor universitário -, o que poderá ter adulterado os resultados. Olcina foi o perito indicado por João Cabreira no processo que decorreu no TAD, no qual o corredor era defendido pela advogada Marina Albino, defensora de Manuel Zeferino no julgamento que decorre na Póvoa de Varzim. As teses de Olcina não foram acolhidas pelos restantes peritos chamados a pronunciar-se perante o TAD, mas o espanhol tem uma justificação para não ter conseguido fazer valer as suas ideias. “Quando fui ouvido estava na Austrália, a bordo de um comboio, depois de assistir à final do Open da Austrália em ténis. Fui ouvido por telefone, nunca pude confrontar argumentos directamente com os peritos alemães”, alegou Guillermo Olcina.

Quase toda a sessão de hoje se deteve na análise de alegadas incongruências e erros técnicos nas análises. Tanto Rodríguez como Olcina foram peremptórios ao considerarem que não é possível o laboratório de Madrid encontrar EPO na amostra de Rogério Batista e o de Colónia detectar protease, pois, à partida, a presença da protease deveria ser suficiente para eliminar a EPO, tornando-a indetectável. O esclarecimento destas e de outras matérias técnico-científicas está dependente do depoimento perante o tribunal de um perito independente. Previa-se a presença de luís Horta nessa qualidade, mas a defesa dos arguidos, especialmente a de Marcos Maynar, tem pendente um requerimento para impedir o depoimento do presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal, alegando que Horta não é isento.

Em defesa da sua ideia de que Luís Horta tem um comportamento parcial, o advogado de Marcos Maynar pediu a junção aos autos de um artigo subscrito por Luís Horta e pelos responsáveis pelos laboratórios de Madrid e de Colónia, no qual se faz a divulgação da descoberta de protease como método de manipulação de amostras antidopagem. “Neste seu artigo, para além de aspectos verdadeiramente polémicos, discutíveis e até sem valor científico, assume a defesa de princípios que, em certa medida, antecipam o seu julgamento pessoal da questão que se discute nestes autos”, leu Caldeira Fernandes no pedido de junção do artigo em causa ao processo.

Garrido acusa a FPC por “intuição”
Entre as testemunhas indicadas por Marcos Maynar que hoje foram ouvidas pelo tribunal estiveram dois dos corredores espanhóis da LA-MSS, José Antonio Garrido e Pedro Romero. Garrido acusou a Federação Portuguesa de Ciclismo de prejudicar a LA-MSS. “Não gostava que ganhássemos corridas e fizéssemos também o segundo e o terceiro lugares”, disse o ex-corredor sobre a FPC. Instado a esclarecer a acusação,  José Antonio Garrido não apresentou dados concretos, referindo que a sua ideia tinha base na “intuição”. Questionado sobre se isso se deveria ao facto de a FPC ser dirigida por pessoas afectas a outras equipas, Garrido arguiu: “Não tenho a certeza, mas pelos dados disponíveis acho que sim”. Perante a pressão da presidente do colectivo de juízes para que concretizasse as suspeitas, o basco admitiu não ter provas, frisando, no entanto, estar convencido de que a Liberty Seguros e o Benfica seriam protegidos pela FPC.

Pedro Romero disse que o trabalho de Marcos Maynar na equipa passava por prevenir a dopagem, submetendo os corredores a testes de hematócrito, de modo a avaliar se haveria “algum ciclista que não tivesse cabeça”, que “poderia pôr em causa a equipa toda”. O ciclismo “está a morrer por causa de erros que são cometidos por alguns ciclistas”, acrescentou o antigo corredor, desvalorizando as suspeitas de dopagem organizada.

Afonso Azevedo voltou ao tribunal, depois de ter testemunhado na primeira sessão do julgamento. Confrontado com um saco preto apreendido na sua residência, Azevedo disse que o objecto lhe pertencia, assim como todos os produtos que pudessem estar dentro do mesmo aquando das buscas da Polícia Judiciária. Com esta declaração aclarou o primeiro depoimento, no qual afirmara que os medicamentos apreendidos poderiam ser da irmã ou do pai. Desta vez garantiu que o conteúdo do saco não seria de nenhum familiar.

A próxima sessão do julgamento está marcada para dia 1 de Junho, às 13h30. Neste dia serão feitas as alegações finais por parte da defesa e da acusação. Poderá ainda ser ouvido Luís Horta, caso o tribunal não dê provimento ao requerimento apresentado pela defesa de Marcos Maynar para impedir o especialista de depor enquanto perito.

7 comentários a “Defesa de Marcos Maynar insiste em tese rejeitada pelo TAD”

  1. …Afonso!…tem paciencia!..come e cala,,,tanto vos hão-de pisar que um dia tereis que acabar mordendo a bota…não reparaste que pertences ao país do come e cala?…para sermos africanos falta-nos a cor ( sem desrespeito pelos bons africanos!)

  2. Afonso é verdade mas nos dias de hoje quem conseguir dinheiro nem que seja a dar o c…serve, mas aqueles não dão a cara….

  3. Ninguem acha isto estranho? Sao tao aplicados para uns e para os outros nao!! Nao foi necessario investigar o porque de 3 positivos com cera na liberty pk? E todos os dias que se acusa cera? E 3 de uma vez antes de uma volta! Nao poderia ser doping organizado? Pk ninguem falou nessa possiblidade e em vez disso foram buscar o seu patrocinador como moeda de troca para o seu silencio,,,,

  4. è imprescindivel ouvir o dr.horta: homem de independencia ilimitada, intelectualmente irreprensivel , defensor acérrimo das sua nobres causas e de um modo desinteressado, percorre o mundo á procura da verdade, unico em determinação e ética ,só existe ele e os que não prestam..então se forem médicos!…de uma pedagogia sem par, sensibilidade e humanidade inexcedivel..não imagina quanto lhe doi ver chegar á meta um atleta em desespero porque tomou uma pastilha….È uma enormidade termos sido crianças e agora sermos velhos sapientes cujo prazo de validade já nem dá para sermos ouvidos!…como de habitude..mais cést la vie!..

  5. Ouvi um dia a alguém que já cá não está: ” eu posso estar muito convencido de um facto, mas se não tiver a certeza absoluta sobre esse facto, e a certeza absoluta é a prova a 100%, não o poderei nunca condenar, porque o 1% que falta a 100% pode ser a verdade e mais vale um culpado solto do que um inocente condenado.”

  6. Esta na cara que o benfica e a liberty eram protegidos porque tambem houve doping no benfica e ninguem fez nada e na liberty igualmente sendo este caso bastante recente e ja estar esquecido

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