Não havia indícios para investigar Bruno Pires

O chefe da brigada da Polícia Judiciária que coordenou as buscas a casa dos elementos da extinta LA-MSS revelou hoje em tribunal que Bruno Pires ficou de fora das buscas por questões de eficácia da operação e por não haver indícios contra o corredor. “Não era possível efectuar essa busca sem prejuízo da restante operação e todos os nossos meios foram concentrados no Norte. Foi uma questão operacional e geográfica, mas também de selecção de alvos. Relativamente a Bruno Pires não tínhamos indícios de que fosse importante incluí-lo na investigação”, revelou Sacramento Monteiro.

Os ciclistas espanhóis da equipa também não receberam as brigadas em casa, algo que a acusação já explicara. Na tese do Ministério Público, os corredores estrangeiros seriam suficientemente experientes para não precisarem de assistência da direcção da equipa para se doparem. As razões de operacionalidade e de jurisdição também terão pesado, pois as buscas em Espanha estariam dependentes das autoridades espanholas, motivo por que a residência do médico só foi revistada meses depois das buscas portuguesas.

A sessão de hoje do julgamento de Manuel Zeferino e Marcos Maynar, acusados da autoria de oito crimes de dopagem e de manipulação de substâncias alimentares e medicamentosas, permitiu perceber melhor alguns contornos da operação policial.

O inspector José Ribeiro, presente nas buscas às residências de Manuel Zeferino, Marcos Maynar e João Cabreira, revelou que o corredor que visitou não estava na morada que constava do seu processo na Federação Portuguesa de Ciclismo e que terá demorado a apresentar-se aos investigadores. “Constatámos que ele não dormia na morada que indicara à Federação para poder ser alvo de controlos antidopagem de surpresa. O quarto que seria supostamente o seu, estava ocupado por uma irmã sua”, adiantou o polícia.

José Ribeiro disse ainda que os dois corredores, João Cabreira e Rogério Batista, que se atrasaram na apresentação às autoridades foram os mesmos a quem os controlos antidopagem detectaram a presença de protease na urina. Os restantes tinham a mesma substância nas residências. Este inspector manifestou a convicção de que os corredores terão comunicado entre si por telefone, dado que as buscas não se fizeram em simultâneo, indo as brigadas de uma casa para outra.

O investigador deixou claro que a morte de Bruno Neves acelerou a operação, quando interrompeu o inquérito cerrado a que estava a ser submetido para frisar que “o valor da vida é superior a qualquer outro valor. Estamos a falar da vida de um atleta”, concluiu, sendo, de imediato, corrigido pela presidente do colectivo de juízes, Elsa Paixão. “Não, não estamos”, frisou a magistrada, já que o objecto do processo não é a morte de Bruno Neves, embora esse acontecimento esteja constantemente presente.

José Ribeiro considerou suspeito que o falecido corredor tenha “protelado” até ao limite do prazo legal – 24 horas – a apresentação a um controlo surpresa. Já antes o presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC), Artur Lopes, considerara que Neves ficara sob suspeita quando enviou para a FPC resultados de valores analíticos distintos. Num primeiro documento surgia um valor de reticulócitos – glóbulos vermelhos jovens – numa concentração que indiciava dopagem. Corrigindo esse documento, fez chegar outro com valores normais. A posterior investigação, como consta do despacho de acusação, constatou que no laboratório onde se fizeram as análises o valor que consta dos registos informáticos é aquele que apresenta reticulócitos numa concentração suspeita.

2 comentários a “Não havia indícios para investigar Bruno Pires”

  1. Deveriam investigar, o porquê da mentira de dar a morada do Alentejo e estar a morar na Povoa de Varzim. O sr. Manuel Zeferino pode confirmar.

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