Tribunal da Póvoa pede certidão da condenação de Cabreira

João Cabreira e Luís Horta foram, nesta manhã, os ausentes mais presentes na segunda sessão do julgamento em que Manuel Zeferino e Marcos Maynar são arguidos, acusados de 16 crimes de dopagem e de manipulação e corrupção de substâncias alimentares e medicamentosas no seio da extinta equipa LA-MSS. O corredor foi chamado à colação devido à condenação de que foi alvo pelo Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), ao passo que o médico foi insistentemente referido pelos advogados de defesa, cuja estratégia passa por conseguir que tribunal não ouça o perito, alegando que Horta teve um papel determinante na investigação e na acusação.

Os advogados foram confrontados com a junção ao processo, por parte do Ministério Público, de uma cópia da decisão do TAD que condenou João Cabreira por manipulação de amostra antidopagem com recurso a protease. A defesa dos dois arguidos pediu que o referido documento não fosse aceite neste processo até que se cumprissem duas condições: que estivesse traduzido e não na língua original (francês) e que houvesse indicação clara de qual a proveniência do documento. Perante os requerimentos, o colectivo de juízes tomou uma decisão que satisfará todas as partes. Decidiu que a sentença do TAD é importante para o processo e decidiu pedir uma certidão da mesma ao TAD, solicitando que a indique se a condenação de João Cabreira é ou não passível de recurso.

As questões colocadas às testemunhas pelas defesas dos dois arguidos, nomeadamente ao chefe de brigada da Polícia Judiciária (PJ) que investigou o caso e um dos inspectores da PJ, foram no sentido de perceber o papel de Luís Horta no desenrolar das investigações. Várias perguntas, sobretudo feitas pelo advogado de Marcos Maynar, coloram ao presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal o rótulo de “investigador”, dando, assim, força à tese desenvolvida na sessão anterior, através de requerimento, que pretende que o tribunal não aceite o depoimento de Luís Horta enquanto perito, por considerá-lo parte da acusação.

O defensor do médico Marcos Maynar, ainda na fase em que se discutia a junção ao processo da cópia da sentença do TAD, acusou Luís Hora de perseguição. “O arguido Marcos Maynar não esconde nem nunca escondeu a firme convicção de que a actuação do IDP/CNAD/Doutor Luís Horta que desencadeou o presente procedimento, tal como outros já arquivados, constitui uma actuação persecutória ao arguido, talvez por o ciclismo português querer impressionar um responsável político no âmbito do desporto nacional e por aquela instituição/pessoa não apreciar o ciclismo português”, frisou Caldeira Fernandes.

A este respeito, os investigadores policiais esclareceram que o papel de Luís Horta foi central, por ausência de alternativa. Enquanto responsável máximo pelo combate ao doping em Portugal teria de ser consultado em casos destes. Sobre o facto de a investigação ter radicado numa denúncia apresentada por Luís Horta, o chefe de brigada, Sacramento Monteiro, foi taxativo: “Faz parte das suas funções, se não denunciasse cometia um crime”. Ficou-se ainda a saber hoje que as autoridades portuguesas de luta contra a dopagem receberam uma denúncia anónima, redigida em castelhano por alguém que se disse corredor espanhol a exercer a profissão em Portugal, que lamentava aquilo que considerava ser a dopagem generalizada na LA-MSS.

A ideia da dopagem “generalizada, sistemática e integrada no treino” foi a conclusão a que chegaram os investigadores da Polícia Judiciária, frisou o chefe da brigada. O inspector revelou ter concluído dessa forma pela conjugação das diversas provas recolhidas. Pela tese da acusação, Marcos Maynar estabeleceu os planos de treino e dopagem, passando-os a Manuel Zeferino, que deveria comunicá-los aos corredores, para que estes os pusessem em prática. Para defender esta ideia, o investigador refere a existência no computador do médico de planos individuais de treino e dopagem, semelhantes a um que foi encontrado na pasta pessoal do director-desportivo. As drogas apreendidas na casa de alguns corredores corresponderiam ao plano elaborado e a centrifugadora que estava no camião da equipa serviria para medir e ajustar os níveis.

“A combinação encontrada no camião – centrifugadora e substâncias mascarantes – permite ir medindo os valores do sangue e corrigindo com os mascarantes se os níveis ultrapassarem os legais”, explicou Sacramento Monteiro. Na sessão anterior, Maynar disse que os planos de dopagem que tinha no computador tinham-lhe sido enviados pelos corredores e haviam sido prescritos pelo médico anterior, que Maynar identificou como Jesús Losa, clínico ligado a escândalos de dopagem na Europa mas que os ciclistas interrogados afirmaram desconhecer.

Outra testemunha foi o presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC), Artur Lopes. O dirigente federativo não soube responder às perguntas concretas da advogada de Manuel Zeferino. Marina Albino pretendia que Artur Lopes especificasse quais os corredores da LA-MSS que acusaram doping em competição. A questão surgiu porque consta do processo um ofício da FPC que indica ter havido duas infracções ao regulamento antidopagem, em competição, no seio da extinta equipa poveira. Como não soube esclarecer os casos concretos, Artur Lopes, ficou de enviar por escrito um relatório completo, no prazo de cinco dias.

Testemunhas abonatórias
A sessão da tarde foi quase toda preenchida com a audição de testemunhas abonatórias de Manuel Zeferino, que foram unânimes no reconhecimento das qualidades humanas e profissionais do técnico, frisando nunca terem ouvido dizer que o director-desportivo dopasse ou incentivasse os seus corredores à dopagem. Depuseram o agente de corredores Juan Campos, o adjunto de Zeferino na Maia e na Póvoa, Casimiro Antunes, o mecânico da equipa, Manuel Neves, o ex-presidente da União Ciclista da Maia, Aires Azevedo, o dirigente do ciclismo do Boavista Tavares Rijo e o antigo corredor e actual comentador televisivo Marco Chagas. Vítor Zeferino, filho do arguido, depôs para dizer que lhe pertenciam os medicamentos encontrados em casa do pai, aquando da busca.

Três testemunhas arroladas pela defesa de Manuel Zeferino puseram em xeque o depoimento prestado na sessão anterior por Luís Almeida, patrocinador principal da equipa e presidente do clube. Manuel Neves e Casimiro Antunes garantiram que Manuel Zeferino nada tinha a ver com a negociação dos contratos e com os pagamentos das despesas e dos ordenados, cabendo essa função a Luís Almeida. Este assegurara que apenas financiava o projecto e que toda a gestão era da conta do director-desportivo. Aires Azevedo, que presidia a União Ciclista da Maia quando Zeferino treinava a equipa, declarou que também nesse projecto os pagamentos cabiam ao presidente e não ao técnico.

Pedro Cardoso foi chamado de novo a tribunal para identificar o saco onde armazenava, na garagem, grandes quantidades de substâncias dopantes. O ex-corredor insistiu na versão de que o saco lhe fora entregue pelo médico Marcos Maynar e que não lhe mexeu durante os quase seis meses que o teve em casa. Cardoso testemunhou que os inspectores da PJ abriram o saco na sua presença.

6 comentários a “Tribunal da Póvoa pede certidão da condenação de Cabreira”

  1. Luis horta e artur lopes apenas querem tramar os poveiros. Toda a gente diz que o zeferino e o melhor e mais humano director desportivo que existe mas mesmo assim querem trama-lo. E uma vergonha isto. A liberty ja esta esquecida? Que e feito do Americo Silva? Caso nao sem lembrem os da liberty foram mesmo apanhados em flagrante com 3 controlos positivos e os da povoa nao

  2. Porque é que será que sr dr artur lopes “não soube” responder ás perguntas concretas da Sr. Dr. Marina Albino??? Falha de memória por parte do dr artur lopes??? Ou esta falta de resposta será a confirmação de que realmente avia sido engendrado um plano para terminar com a equipa da Póvoa???

    Conseguiram acabar com equipa sim! Mas cometeram muuuuuuuuiiiiiiiiitos erros na execução desse plano… E agora vão se ver atrapalhados para explicar certas e determinadas coisas á justiça … Será que 5 dias chegaram para o dr Artur Lopes inventar uma desculpa??? Ou irá meter os pés pelas mãos??? Mais me parece….

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