“O senhor devia era tomar qualquer coisa para a memória”

Afonso Azevedo foi alvo da ironia da juíza Elsa Paixão
Afonso Azevedo foi alvo da ironia da juíza Elsa Paixão

“O senhor tem é de tomar qualquer coisa para o cérebro, para a memória”. As palavras foram dirigidas a Afonso Azevedo pela presidente do colectivo de juízes que julga Manuel Zeferino e Marcos Maynar, Elsa Paixão. Depois de o ex-corredor, chamado a depor como testemunha, se ter enredado em contradições e de não responder de forma concreta às perguntas do tribunal, a juíza fez um ponto de ordem. Antes de Afonso Azevedo fora Pedro Cardoso a contradizer-se e a contradizer o médico Marcos Maynar.

Os dois ex-corredores foram incapazes de justificar o motivo por que tinham em casa várias doses de substâncias dopantes, entre as quais uns comprimidos laranja embrulhados em papel de prata, que foram apreendidos na casa de três corredores da extinta LA-MSS., e que as análises laboratoriais vieram a provar serem um agente anabolizante. “Não moro sozinho em casa. O meu pai é amante de desporto e a minha irmã é praticante não federada”, defendeu-se Afonso Azevedo, admitindo que pudesse ser algum daqueles dois familiares a utilizar os referidos medicamentos, que não existem à venda em farmácias e que serão fabricados no “mercado negro”.

Sem justificação ficou a presença, numa bolsa propriedade de Afonso Azevedo, de um medicamento que pode ser usado como substituto plasmático, permitindo diluir o sangue e mascarar utilização de substâncias e métodos dopantes contendo testosterona. Do mesmo modo, posto perante um documento que o Ministério Público entende que é um plano de dopagem individual, o antigo corredor e actual estudante universitário declarou achar que se trataria de um programa de ingestão de vitaminas, cuja origem Azevedo disse não se recordar. Durante a manhã, Marcos Maynar frisara que os ditos documentos ter-lhe-iam sido entregues pelos próprios ciclistas e que, aparentemente, configuravam um plano de dopagem provavelmente gizado pelo médico anterior, que Maynar disse ter sido Jesus Losa, mas com o qual as testemunhas afirmaram não se lembrarem de terem trabalhado.

Pedro Cardoso guardou um saco carregado de dopantes durante cinco meses
Pedro Cardoso guardou um saco carregado de dopantes durante cinco meses

O primeiro dos antigos corredores a ser inquirido foi o “capitão de equipa”, Pedro Cardoso. O minhoto deu uma curiosa justificação para ter na garagem de casa um saco com centenas de produtos dopantes: “O saco foi-me entregue, num almoço de Natal, pelo médico [Marcos Maynar], que não me disse o que era. Apenas pediu para guardar”. E Pedro Cardoso guardou. Até que a Polícia Judiciária encontrou a encomenda, que Cardoso diz não saber a quem pertencia – “foi o médico que me entregou, não sei de quem era”, afirmou – e a quem se destinava. Pedro Cardoso, questionado pela advogada de Manuel Zeferino, asseverou que nunca foi “controlado positivamente”por dopagem. No entanto, a verade é que lhe foi retirada a vitória no GP Paredes Rota dos Móveis, conquistada na véspera da operação policial. Apesar de, em sede de recurso, ter visto a pena inicial reduzida, Cardoso foi castigado por usar um glucocosticoróide sem que o CNAD tenha recibo a necessária autorização terapêutica, que o ciclista sempre garantiu ter remetido por faxe.

Também João Cabreira e Rogério Batista rejeitaram terem alguma vez violado os regulamentos antidopagem, apesar de Batista estar, de momento, castigado por dois anos por manipulação de amostra antidopagem – o ciclista recorreu da suspensão – e de Cabreira estar a braços com um processo no Tribunal Arbitral do Desporto pelo mesmo motivo. “A primeira vez que ouvi falar em proteases foi quando a Polícia Judiciária me chamou e comunicou que essa substância foi encontrada na minha urina”, argumentou Cabreira. O actual corredor do CC Loulé acrescentou que o transporte da sua amostra de urina para Colónia fez-se “em condições lamentáveis”, que poderão ter potenciado o aparecimento da substância que elimina a EPO da urina. Já Rogério Batista, a quem foram detectados traços de EPO na urina, na qual também foi encontrada a mesma protease, foi lacónico: “Não sei como isso apareceu”, talvez por razões endógenas ou por má conservação da urina, argumentou.

Se em Cabreira e Batista as proteases apareceram na urina, outros intervenientes no processo tinham-nas em casa. Foi o que sucedeu com Cláudio Faria, Afonso Azevedo e o médico Marcos Maynar. O clínico não sabe como é que o pó lhe apareceu na residência, mas aventa a possibilidade de algum desportista a ter deixado lá para analisar. Afonso Azevedo contou ter comprado a protease em Espanha, porque lhe tinham dito que ajudava na digestão. Cláudio Faria faltou ao julgamento. A advogada de Manuel Zeferino referiu que o corredor estaria emigrado. Talvez tenha regressado ao estrangeiro após ter passado a Páscoa em Portugal, pois no sábado esteve na Maia, onde decorreu a Volta ao Concelho da Maia.

Manuel Zeferino manteve-se em silêncio e foi elogiado pelos ex-corredores
Manuel Zeferino manteve-se em silêncio e foi elogiado pelos ex-corredores

Numa coisa, os ex-corredores ouvidos estiveram de acordo. Todos, sem excepção, garantiram que Manuel Zeferino era o melhor director-desportivo nacional, nunca tendo incitado nenhum deles a dopar-se e que era um treinador que se preocupava com a saúde dos corredores. A defesa de Manuel Zeferino, a cargo da advogada Marina Albino, habitual defensora de corredores em processos disciplinares, insistiu na tese de que o seu cliente não se intrometia nas competências dos outros profissionais da equipa – massagistas, mecânico. A respostas de alguns dos ciclistas levaram mesmo a concluir que o director-desportivo não era responsável pelos planos de treinos, já que seriam os corredores, com base na experiência adquirida com os anos de carreira a planificarem a preparação, embora sendo seguidos com interesse pelo técnico, que lhes telefonaria, regularmente, para saber como estariam a evoluir os treinos e as sensações.

De acordo com as palavras dos antigos corredores, o médico também não intervinha na definição dos planos de treino. Aliás, interrogados sobre se seriam submetidos a testes de hematócrito por parte de Marcos Maynar, Afonso Azevedo e Pedro Cardoso declararam que se isso aconteceu foi esporadicamente. Estes depoimentos contradisseram o médico, que, nesta manhã, garantira que a sua principal função passaria por medir os valores sanguíneos dos ciclistas, de modo a ver se algum deles estaria fora dos limites. Segundo o clínico, só um ciclista ficou de fora de uma prova por esse motivo. Aconteceu no GP de Paredes de 2007, mas não foi nomeado pelo arguido.

As contradições nos depoimentos de Pedro Cardoso e Afonso Azevedo foram tais, que são as únicas testemunhas que hoje depuseram que serão de novo ouvidas, por iniciativa do colectivo de juízes.

Hoje foram ouvidas onze testemunhas, faltando ainda recolher o testemunho de 19 outras pessoas. As próximas sessões estão marcadas para os dias 6 e 17 de Maio. A defesa de Marcos Maynar, a cargo do advogado Caldeira Fernandes, requereu o impedimento de Luís Horta ser chamado a depor como perito. O clínico espanhol quer afastar do julgamento o maior especialista nacional na luta antidopagem. O argumento é o de que o presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal já interveio no inquérito que resultou na acusação, que indicia Manuel Zeferino e Marcos Maynar de 16 crimes de administração de dopagem e manipulação de alimentos e substâncias medicamentosas.

Enquanto Marcos Maynar optou por falar no início do julgamento, sendo desmentido, em vários aspectos pelos corredores, Manuel Zeferino entrou mudo saiu calado.

14 comentários a ““O senhor devia era tomar qualquer coisa para a memória””

  1. enfim comentarios para que isto e uma generalidade da justiça , ou melhor a nao aplicaçao da justiça em portugal, ja estamos habituados, coitado deste triste pais, assim vale tudo ou melhor continua a valer, e ja estou como um sr, dizia e o burro sou eu hahahahahahahaha

  2. ate agora so li estupides de mouros k so podem ser adeptos da liberty pk sera k a liberty tambem nao a suspensa por doping o nuno ribeiro tomou medicamentos para a toçe kuando vençeu a volta a portugal o ano passado dixem de ser viatas de igreja

  3. esforça-se uma pessoa a treinar para ganhar provas e depois vai correr contra pessoas que só andam com “xarope”.
    é a bela vergonha do ciclismo português

  4. Isto parece uma anedota de mau gosto…Realmente ainda assim andam estes senhores a dizerem-se inocentes, com estas provas todas…eles arranjam desculpa para tudo só que é cada uma mais esfarrapada do que outra, só faltava encontrarem sangue deles em tubos de ensaio e dizerem que era para fazer uma cabidela…lol Eu não gosto de vir para aqui dizer mal, mas isto é uma vergonha, estes senhores foram bem expulsos do ciclismo e assim devem permanecer, assim como os outros, Nuno Ribeiro, Hector Guerra e afins…

  5. por essa ordem de ideias todos os passaram por pupilos do manuel zeferino
    correram todos dupados (ze azevedo, candido etc.etc) tenham juizo meus senhores parecem velhas.

  6. A maestrina ensaiou mal a orquestra. Os músico estiveram afinadinhos no Requiem por Zeferino, mas tocaram cada um para seu lado no resto da sinfonia. O resultado foi merecedor de pateada.

  7. Estes comentadores que me desculpem, mas se todos sabemos que um profissional toma doping e não faz queixa dele se o torna culpado, quase todos os que tem amigos nesse mundo devíamos estar presos então. Pois sabemos. Com isto não quero dizer que não era o zeferino que lhes fornecia isso mas se eles dizem que ele não se metia nisso sem provas não se pode repreender essa pessoa.

  8. SR. ANTÓNIO DIAS E JOSÉ COSTA: EMBORA NÃO TENHA PERTENCIDO EU À EQUIPA LA MSS, SUBLINHO O DITO PELOS ATLETAS DAQUELA EQUIPA.O ZEFERINO É E SEMPRE FOI UM EXCELENTE DIRECTOR DESPORTIVO, UMA PESSOA INTELEGENTE NA ESTRATÉGIA DA CORRIDA, MAS É UM DIRECTOR QUE NÃO INTERFERE N OPINIÃO DE TÉCNICOS COMO MASSAGISTAS,MÉDICOS….. TEM A NOÇÃO DO TRABALHO A FAZER NA ESTRADA POR UM ATLETA MAS NÃO INTEFERE NO RESTO. OS SENHORES QUE JA COMENTARAM MUITAS NOTICIAS REFERENTES AO ZEFERINO DEVIAM TAMBÉM CALAR-SE E MANTER UMA POSTURA DIGNA DAQUELES QUE NADA SABEM E POUCO IMPORTAM…..

  9. Aposto que ninguém vai para a prisão. Se for provada a acusação devem levar uma multazita e afastamento da actividade desportiva por uns anos.

  10. Estes já parecem o ministro da Informação do Iraque… De facto, patético. Já se percebeu que os indícios daquilo que se passava naquela mórbida equipa são seguros. Só falta é fazer a prova dos nove… E a provar-se tudo, espero que esta gentalha vá parar à prisão…

  11. Se os atletas que estavam a par de tudo continuam a fazer confiança no zeferino quem e o senhor jose costa para desacreditar nele

  12. ” Todos, sem excepção, garantiram que Manuel Zeferino era o melhor director-desportivo nacional, nunca tendo incitado nenhum deles a dopar-se e que era um treinador que se preocupava com a saúde dos corredores. A defesa de Manuel Zeferino, a cargo da advogada Marina Albino, habitual defensora de corredores em processos disciplinares, insistiu na tese de que o seu cliente não se intrometia nas competências dos outros profissionais da equipa – massagistas, mecânico ”

    Nao me venham agora dizer que o zeferino nao sabia de nada……..

    é um santinho no meio disto tudo….. até faz rir……

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