A originalidade do ciclismo português

O ciclismo português tem características que fazem dele peculiar quando comparado com o ciclismo de outros países. Por bons e por maus motivos. Comecemos pelos primeiros. Quantas corridas há no Mundo inteiro que despertem a paixão popular da Volta a Portugal e que tenham uma cobertura mediática tão forte como a prova-rainha do ciclismo luso? Muito poucas, o que faz do ciclismo uma modalidade com impacto social e, logo, uma boa aposta para investimentos publicitários. Aliás, Portugal deve ser das poucas nações – senão a única – em que as equipas Continentais são tratadas como se de estruturas altamente profissionalizadas se tratassem, quando o espírito deste escalão é outro.

E aqui começam os maus motivos que tornam original o nosso ciclismo. A modalidade está construída, ao nível da tipificação das equipas, de um modo lógico. Temos os colectivos superprofissionais, as grandes estrelas, que se concentram no ProTour. Segue-se um escalão intermédio, o Continental Profissional, em que se agrupam equipas de média dimensão, algumas das quais capazes de medir forças com as melhores do Mundo. Depois, existe o escalão Continental, que funciona como porta de entrada no profissionalismo para as jovens promessas, daí a imposição de uma maioria de menores de 28 anos entre os membros do plantel…

Acontece que Portugal é um caso à parte. Como a Volta a Portugal tem uma cobertura e uma atenção do público dignas das maiores provas do globo, as equipas portuguesas comportam-se como tal. Formam blocos altamente competitivos, investindo, quando a conjuntura internacional o permite, em corredores estrangeiros, sobretudo espanhóis, de renome e cumprem o regulamento do limite de idades… inscrevendo como ciclistas outros elementos das equipas técnicas quando não familiares dos dirigentes.

Em termos práticos, esta postura permite aos adeptos nacionais assistir a provas mais espectaculares do que aquelas que as equipas Continentais de outras paragens oferecem, dado que as nossas têm excelentes intérpretes da modalidade. Isso pode ajudar a cativar novos adeptos para o ciclismo. Mas há um senão e bem grande! As portas vão-se fechando aos jovens portugueses. E isso sucede de múltiplas formas. Por um lado, há cada vez menos vagas nas equipas Continentais para absorver os sub-23 que passam a elite. Por outro lado, muitos ciclistas nunca chegam a explorar completamente todas as suas faculdades, porque, desde novos, têm de trabalhar para as estrelas das respectivas equipas, quase sempre corredores importados ao país vizinho.

Há cerca de um ano, Serafim Ferreira dizia, em entrevista ao Jornal Ciclismo, que “o ciclismo português é uma utopia”. Ainda não será, mas se não se mudam as mentalidades, corremos o risco de que se cumpra uma profecia avançada na mesma entrevista por Serafim Ferreira: “A Volta a Portugal não tem mais de cinco anos de vida”. É que sem bases sólidas, o topo da pirâmide deixa de fazer sentido.

6 comentários a “A originalidade do ciclismo português”

  1. estão a deixar escapar um grande ciclista ano acredito como e possível deixarem o melhor da volta a Portugal 2009 de fora!!! só vêem dinheiro a frente pá!!!

  2. Um dia,durante a volta a Portugal em 2003,em conversa com um jornalista e um dirigente,entao apenas director desportivo da competição,em que em termos de piada diziamos que o ciclismo tinha tudo de bom,só os ciclistas estão a mais.
    Passados todos estes anos vejo um artigo em que de alguma forma se afirma o mesmo,significativo,o tempo passou mas as coisas continuam exatamente na mesma,ciclistas a mais num universo em que quem pode tenta ganhar um pouco mais de visibilidade ou facturar um pouco mais em detrimento do desporto,que mesmo sendo de alta competição,nao deixa de ser um desporto e assim um lugar onde os melhores tem lugar e o menos valiosos tem de trabalhar mais e mais para atingir o lugar ao sol ou desaparecerem.

    O nivel deve ser o mais elevado possivel e nao nivelar por baixo.

  3. Temos duas opiniões coincidentes: a do jornalista e do amigo Armando Oliveira, ambas desconexadas da realidade nacional. Não vamos agora escalpelizar esta situação. O que fica claro é que o ciclismo nacional não tem capacidades financeiras para integrar a lista dos países mais ricos, quer ao nível da formação de equipas, quer ao nível dos organizadores.
    E a realidade nacional, afastada do centro da Europa, é que as equipas nacionais são suportadas por patrocinadores com interesses exclusivos no nosso país, mesmo a Liberty Seguros, uma entidade multinacional, apenas tem interesse por força do representante em Portugal.
    Porquê então a constituição de equipas continentais ? Que mais valias redundam para uma equipa nacional uma participação, por exemplo em provas francesas senão há qualquer interesse comercial nesse país e os orgãos de comunicação nacional nulas referências fazem a essas participações.
    Como equipa considerada profissional pelas entidades internacionais, face às exigências de inscrição, por exemplo bem mais complicadas que a inscrição de uma equipa de futebol na I Liga profissional, porque é que uma equipa continental nacional tem de ter, nas suas fileiras uma maioria de ciclistas com menos de 28 anos de idade?
    O problema que existe é que a UCI não tem em conta a realidade de cada país e legisla para os países ricos, pouco se importando com os pequenos países e as pequenas equipas, nem tão pouco respeita a tradição de cada país, como o caso da Volta a Portugal limitada apenas a nove irrisórios dias de competição, sabendo-se que a média de dias da Volta é de 16 .
    O que aconteceu ao ciclismo nacional foi a constituição de um calendário de provas sem sustentabilidade, e que contribuem apenas para o ” enriquecimento” de uma instituição que nada fez pelo nosso ciclismo.
    Dos cerca de 25 anos de ciclismo do Boavista, muito perto de 100.000 €, foi quanto a UCI recebeu sem nada ter dado como contrapartida.
    Se somarmos a inscrição das equipas nacionais, dos organizadores e das multas, no final de um ano ,Portugal contribui com perto de outros 100.000 € anuais. Para quê ?
    Para termos uma Volta com dez dias ?
    Valerá a pena ? Sempre admiti que Portugal não tinha capacidades financeiras para competir de armas iguais com as grandes potencias internacionais, infelizmente a realidade bem mostrando que temos razão e, curiosamente, a grande derrocada começou com o Mundial de Lisboa, sem transmissão em directo no nosso país, sem público e sem evidentes proventos internos.

  4. Parabéns ao artigo. Já tinha pensado em tudo isto e mais. É necessário uma mudança de mentalidades, uma evolução da cultura que existe no ciclismo nacional que é transversal a todas as instituições directamente relacionadas.
    É preciso trabalhar mais e sobretudo melhor. A lei do salve-se quem puder dita em grande medida o desaparecimento de grandes promessas. Sem atletas portugueses nas estradas deixará de haver interesse da população. Outro erro é a internacionalização demasiado brusca do ciclismo português (provas Cat. Internacional). Deveria haver espaço para existir outro organizador de provas de menor escalão ligado aos média. Deve haver mais trabalhinho da parte da federação FPC concertado com outras federações (UVP-FPC+FPCUB) para a promoção da bicicleta na população. Sem isso iremos assistir ao lento mas determinado colapso do ciclismo português.

    Felicianoda Vasa Ferreira

  5. A originalidade do ciclismo Português

    Cada vez mais fico surpreendido com os factos que se vão passando no ciclismo português, são os casos de doping que afinal já não o são, é o final de equipas que são empurradas para tal é os jornalistas que fabricam as noticias á medida de quem paga.
    E agora o caso mais surrealista a inscrição de pessoas que se calhar nem de bicicleta sabem andar como ciclistas, e isto tudo com o amem da federação e das entidades responsáveis IDP incluído, os patrocinadores e os organizadores de corrida ficam um pouco baralhados, pois estar a investir dinheiro numa modalidade que não fosse o amor que o povo tem por ela, já teriam parado de investir há algum tempo.
    Eu como elemento ligado á organização de uma das mais antigas provas do pais,(Volta ao Alentejo) fico extremamente apreensivo quanto ao futuro do ciclismo em Portugal. E passo a explicar porquê, não há ciclismo sem organizadores de corridas e não há organizadores de corrida sem patrocínios, neste momento os privados viraram as costas ao ciclismo e não fosse a EDP, PT, CTT e pouco mais e que só apoiam as provas da PAD, vá-se lá saber porquê, e as Autarquias que com todas as suas limitações e com a falta de divulgação que as provas tem estão a virar as costas aos outros organizadores veja-se o caso da volta Algarve que á pouco tempo não tinha o itinerário definido por falta de resposta das câmaras, também a volta ao Alentejo sofre do mesmo mal patrocínios privados quase nada e as autarquias cada vez menos e o que pagam é insuficiente para manter uma prova deste género, portanto aqui fica mais um alerta deixem-se de quezílias e trabalhem para o bem do ciclismo em Portugal, senão o Sr. Serafim Ferreira tem razão a Volta a Portugal que é o topo já não dura muito tempo, mas as outras acabam primeiro.

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