Pista nos JO: Futuro sem passado

Comité Olímpico Internacional decide provas olímpicas para Londres 2012. A UCI quer excluir a perseguição individual. A polémica está lançada

João Santos

A polémica está lançada e a argumentação, no mínimo, é frágil. Em busca da paridade, do equilíbrio entre géneros,  o programa olímpico para os Jogos de Londres 2012 vai mudar numa decisão que se prevê anunciada para o final da semana pelo Comité Olímpico Internacional (COI).

Na base da mudança está a necessidade de estabelecer o mesmo número de provas  para ambos os sexos, uma tentativa de equilíbrio decretada pelo COI e que, com o apoio da União Ciclista Internacional (UCI), poderá reduzir o programa olímpico a cinco eventos: a Velocidade, a Velocidade por equipas, a Perseguição por Equipas, Keirin e o recente Omnium.

Neste novo programa, a perseguição individual, a corrida por pontos e o Madison ficarão de fora, gerando a contestação própria em redor de qualquer disciplina que perde estatuto olímpico. A escolha mais polémica – e potencialmente mais descuidada – refere-se à perseguição individual uma prova clássica do programa de ciclismo de pista e dos próprios Jogos Olímpicos desde a especialidade foi introduzida, nos Jogos de Tóquio, em 1964.

No ano passado,em Pequim, o ciclismo de pista repartiu-se por um programa de uma dezena de eventos, dos  quais sete foram provas masculinas – sete foi igualmente o número de medalhas conquistadas pela Grã-Bretanha – conta apenas três eventos para atletas femininas.

Com a introdução da “lei da paridade”, a comissão de pista da UCI decidiu-se pela exclusão da perseguição individual em favor do “Omnium”, um conjunto de cinco provas numa espécie de pentatlo moderno do ciclismo em pista.

[quote]

O problema é que, por ora, poucos se interessam pelo Omnium, ao passo que dificilmente se poderá dizer o mesmo da perseguição individual, a prova em vias de exclusão com mais “peso” e tradição. Além da paridade – argumento que só por si merece discussão à parte –  estão em causa os critérios de escolha anunciados pela Comissão de pista da UCI: a manutenção do interesse do público durante os cinco dias de provas e a salvaguarda geral que o programa global de ciclismo permaneça nos Jogos quando já foi, recorde-se, ameaçado de exclusão, após os crónicos problemas com dopagem na Volta a França e, ainda recentemente, com os “positivos” de Isabel Moreno – a primeira atleta excluída dos Jogos de Pequim por dopagem – e, mais tarde, de Davide Rebellin.

Em redor da TV – outro potencial elemento de decisão -, o COI deverá acatar a decisão da comissão de pista da UCI que, publicamente, delibera a favor do Omnium. De discipina praticamente desconhecida e recuperada ao ponto de apenas ter três Campeonatos do Mundo disputados a evento olímpico tudo se processa no seio da Comissão de Pista da UCI.

“Gostaria de manter a perseguição, tal como o Madison e a corrida por pontos, mas estamos perante uma situação que, em 2013, será reavaliada e um dos desportos olímpicos será eliminado. Não podemos colocar o ciclismo numa posição em que se arrisque a ficar de fora do programa”, avaliou Pat McQuaid, presidente da União Ciclista Internacional (UCI) à revista norte-americana Velonews, que tem acompanhado o caso ao pormenor de revelar os eventuais  interesses particulares dos membros da comissão de pista, quase todos organizadores de provas.

Mas o que poderá afectar o espírito de McQuaid, o que ele poderá sugerir nas entrelinhas das suas declarações, é mesmo a ameaça de exclusão do ciclismo dos Jogos Olímpicos. Ainda que pouco plausível, é a sombra do doping que ainda paira no ar.

Sendo que a prova de perseguição individual é aquela que mais facilmente se adapta à participação de corredores de estrada pelas suas características de “endurance”, esse elemento é, em simultâneo, a sua maior força e a sua maior fragilidade. Por um lado, a prova de perseguição individual sempre foi valorizada pela presença de corredores de estrada cujo exemplo mais recente é o do britânico Bradley Wiggins, medalha de ouro em Pequim e em Atenas e que evoluiu ao ponto de terminar quarto classificado na Volta a França, ultrapassando por larga escala a popularidade média do ciclista de pista.  Por outro lado, a presença de “estradistas” em eventos de pista  poderá, à escala de McQuaid, significar um ponto desfavorável à prova de perseguição individual pretendendo a UCI, de forma indirecta,  delimitar a participação destes atletas nos Jogos Olímpicos.

Se a decisão, em teoria, não afecta o ciclismo português – apenas significa eliminar o passado de um evento com pergaminhos no movimento olímpico nos quais os portugueses passaram ao lado – a mesma também não o beneficiará. Sabendo-se da dificuldade acrescida que significa formar atletas nas vertentes mais específicas da pista – velocidade é o melhor exemplo -. perante a mais fácil adaptação de ciclistas de estrada às disciplinas de maior resistência – corrida por pontos, perseguição por equipas e perseguição individual – é caso para dizer que a retirada da perseguição individual é mais uma pedra no caminho do desenvolvimento da pista em Portugal.

Foto: Bradley Wiggins da pista ao quarto lugar do Tour 2009 / Bike Radar

1) O Omnium é composto pelos seguintes eventos: 200 metros com partida lançada; uma corrida de eliminação de cinco quilómetros; 3 quilómetros de perseguição individual; uma corrida por pontos com 15 quilómetros; uma prova de um quilómetro. Ao vencedor de cada evento é atribuído um ponto, aumentando à medida da descida da tabela. O vencedor geral é aquele que somar menor pontuação.

2) O Omnium entrou para o programa dos campeonatos do mundo de pista pela primeira vez em 2007. Nesse ano, em Palma de Maiorca, foi campeão o checo Alois Ka?kovský. Em 2009, o campeão mundial é o australiano Leigh Howard.

3) Notáveis campeões mundiais em perseguição individual: Roger Rivière, Chris Boardman, Graeme Obree, Bradley Wiggins.

BradleyWiggins_468x551

2 comentários a “Pista nos JO: Futuro sem passado”

  1. Isto é uma parvoice pegada.

    Estao a retirar do que de melhor existe na pista.

Os comentários estão fechados.