Camisola com História – Deutsche Telekom

O ano de 2007 deixou mossas profundas no ciclismo mundial. Os sucessivos escândalos de doping vieram pôr a nu uma realidade há muito suspeitada, mas que carecia de confirmação: o doping está disseminado no ciclismo – como noutros desportos de alta competição, é óbvio – e atinge grande parte dos seus principais intérpretes.

Cansados de “broncas” sucessivas, muitos patrocinadores recuam na hora de financiar o ciclismo. Foi o que aconteceu com a Deutsche Telekom, empresa alemã que vinha patrocinando uma equipa ao mais alto nível, desde 1991. As camisolas rosa do conjunto germânico pareciam património do ciclismo e muitos dos mais jovens adeptos da modalidade não se lembram de ver uma grande corrida sem as cores da firma de telecomunicações da Alemanha.

Mas a paciência tem limites. E a paciência da administração da Deutsche Telekom chegou ao fim com o anúncio de que em 2008 o dinheiro da instituição não servirá para financiar qualquer projecto velocipédico. É um triste fim para uma das equipas mais fortes dos últimos anos do pelotão internacional. Mas acaba por ser um desfecho pouco surpreendente tendo em conta aquilo que se tornou público sobre o funcionamento interno da equipa.

O dinamarquês Bjarne Riis – também conhecido por senhor 60% devido à sua taxa de hematócrito inflacionada pelo consumo de EPO – admitiu que venceu o Tour de 1996 dopado. Surgem agora notícias de que o grande símbolo da equipa e expoente máximo do ciclismo alemão das últimas décadas, Jan Ullrich, também terá recorrido à batota para conquistar a Volta a França de 1997, os dois principais triunfos do colectivo. Além disso, Patrik Sinkewitz abriu o livro sobre a sua carreira e contou como esteve montado, até 2006, um sistema de dopagem generalizado e organizado.

Para trás ficaram também as confissões de outros corredores e ex-corredores que passaram por aquele grupo desportivo. Os sucessos desportivos correm, assim o risco, de ficarem para sempre imersos na lama da suspeição. Motivo por que a Deutsche Telekom sai de cena, embora a equipa continue na estrada, sob a designação de High Road.

A história começou em 1991. Sob a direcção de Hennie Kuiper e de Herman Snoeijink, o pelotão contava com a Telekom-Mercedes-Merckx nas suas fileiras. Do plantel da equipa constava um dos que seriam os nomes mais sonantes do colectivo germânico, Udo Bolts. No ano seguinte, a direcção desportiva passou para as mãos do histórico Walter Goodefroot.

Os principais símbolos da equipa começaram mais tarde a entrar para o plantel. O primeiro foi Erik Zabel, em 1993. Um ano depois, chega, como neoprofissional estagiário, a grande esperança do ciclismo mundial da altura, Jan Ullrich. É também nesse ano que a equipa técnica passa a contar com aquele que, para o bem e para o mal, há-de sempre ficar conhecido como “pai desportivo” de Ullrich, Rudy Pevenage.

De então para cá, a história é conhecida e é feita de grandes resultados e de muitas suspeições.

Imagem: http://www.memoire-du-cyclisme.net